Reportagem

Marcam férias para poder estar com o santo em Alfama

Marcam férias para poder estar com o santo em Alfama

Com o mês de junho chegou o cheiro a sardinha assada nas vielas de Alfama. Este é o bairro mais castiço de Lisboa, aquele onde a tradição mais resiste aos anos e ao avanço do turismo desenfreado, que vai empurrando para fora quem lá nasceu e cresceu, sobretudo as gerações mais novas. Mas, mesmo quem foi obrigado a partir, não dispensa o regresso nesta altura do ano. Esta quarta-feira é dia de desta, com a terceira vitória consecutiva nas Marchas Populares de Santo António.

O Santo António é um misto de devoção, paixão e dedicação, que fica no sangue desde o berço. Morem onde morarem, estes dias são para montar os tradicionais "retiros" - as pequenas bancas de madeira, onde os foliões comem sardinhas, chouriço assado, bifanas e couratos. Tudo regado a vinho tinto ou cerveja. Não faltam os que aproveitam todos os momentos após o trabalho para dar uma mãozinha à família. E quem não tem essa hipótese não hesita em marcar uns dias de férias.

Este é um ritual a que os irmãos António (48 anos) e Bruno Carvalho (43) já se habituaram há muito. Chega o mês de junho e é vê-los em cima do escadote, a instalar lâmpadas, tratar do som e a montar a banca. Ambos cresceram no bairro, mas a vida afastou-os para outras zonas. António vive na Quinta do Conde (Sesimbra) e Bruno em Carcavelos (Cascais). Mas o amor às raízes populares dita o regresso às origens. Para ambos, tirar férias é a solução. "Esta é a tradição que não vamos deixar morrer. Foi a minha avó que começou, nós já somos a terceira geração e as minhas filhas a quarta", explica António, junto ao Retiro das Tesas, o seu espaço num beco de Alfama.

"É a paixão por isto que nos move, não o dinheiro que ganhamos no Retiro, até porque só abrimos quatro dias", explica Bruno Carvalho, o irmão. E remata com uma tirada bem disposta..."Se calhar, é melhor não pôr o meu apelido... vão pensar que sou o presidente do Sporting", diz, entre risos, ele que é benfiquista "ferrenho".

Uns metros à frente, no Retiro da Coxa, Fátima Domingos, que ainda reside no bairro, confirma que é "o ano inteiro a sonhar com estes dias". Aos 53 anos, é daquelas genuínas, que não troca a sua Alfama por nada. "Nasci aqui, no número 13 do Beco do Pocinho, numa casa que já não existe. Ainda fui pesada na balança do peixe", aponta, enquanto lembra o contraste com a atualidade. "A tradição mantém-se, sim, mas hoje, durante os dias de semana, são os estrangeiros que dão vida a isto, antes era tudo cheio", observa.

Para montar o seu retiro, Fátima contou com a ajuda do marido, Jaime, que, para participar ativamente na festa, também tirou "uns diazinhos" de férias. O casal conta ao JN que "dá muita pena" ver tantos amigos e vizinhos de infância partirem, por não aguentarem a subida das rendas. "Até os idosos eles perseguem para sair. Qualquer dia não resta ninguém, vamos ter de recorrer aos estrangeiros para a marcha de Alfama", ironizam.

Mas o mês de junho em Alfama é apenas a parte mais visível do que é o pulsar do bairro. A festa é cuidadosamente preparada ao longo de todo o ano para chegar a estes dias em que o cheiro a sardinha assada invade cada viela e há música a sair das colunas em ruas enfeitadas por arquinhos e balões. Depois, há também os famosos tronos, que, colocados à porta das casas, apelam ao célebre "tostãozinho para o Santo António". "Se quiser ter um casamento feliz, deixe lá uma moedinha", apela a D. Maria, dando eco à fama de "casamenteiro" do santo que dá mote às festas populares de Lisboa.

No Largo de São Miguel, há um espaço que é impossível passar despercebido a quem por ali passa: o Retiro Mãe e Filhas. É ali que Tina Costa monta todos os anos o seu arraial, onde, diz quem por ali anda, se comem as melhores sardinhas de Alfama. Filhos e netos ajudam, todos eles habituados desde o berço ao frenesim da festa.

"Fui criado aqui. Quando era pequeno, passei muitas noites de Santo António ali a dormir dentro do balcão", conta Fábio Costa que, aos 26 anos, é mais um dos que já não mora em Alfama e tira férias para ajudar. "Vivo em São João da Talha (Loures), mas este bichinho está cá, não posso faltar. Aqui, além da família, estão as amizades de uma vida", explica, reconhecendo que aprendeu muito com a avó, a grande mentora do negócio da família.

Já a irmã, Ana Catarina, 24 anos, diz que este ano não está a trabalhar, mas que nos anteriores sempre tirou férias para voltar ao bairro, apesar de atualmente viver na Penha de França. Mas, afinal, o que tem Alfama, que faz estes jovens gostarem tanto de voltar? "Aqui, sentimo-nos mais em casa, as pessoas são mais umas para as outras, há uma união que, hoje em dia, já não se vê em todo o lado", descreve a jovem. Também ela lamenta ver pessoas que toda a vida ali viveram a partirem por não conseguirem aguentar a subida das rendas. "Às vezes, parece que querem acabar com um bairro histórico", lamenta.

Já no Retiro da Tia Alice, Joaquim Chaves, 77 anos, vai olhando a labuta das filhas e sobrinha, todas filhas de Alfama, embora algumas já ali não vivam. "Eu sou metade de Alfama, metade da Mouraria, mas o meu coração é daqui, sem dúvida", diz o homem, que se confessa "adepto do Belenenses", uma fé que não conseguiu transmitir aos filhos. "São todos do Benfica", destaca, entre um encolher de ombros.

A sobrinha Fernanda Piloto, 50 anos, mudou-se há anos para os Olivais, mas, diz, "esta ligação a Alfama não se perde. Posso não estar cá a viver, mas sinto o bairro como meu, não posso faltar", explica. E nem a agitação das noites mais concorridas lhe faz confusão. "É do hábito", garante, confessando que a alegria de viver o Santo António "é tanta", que no dia seguinte até vai trabalhar "mais bem disposta".

A devoção a Alfama e a Santo António só causa estranheza a quem vem de fora. Como diz o povo: "Uma vez Alfama, Alfama para sempre". A família de Hélber Reis é aliás um bom exemplo. Ele nasceu no coração do bairro, mas a companheira e os filhos desta vieram de fora e só ali residiram alguns anos. Os suficientes para manterem uma ligação sentimental que a distância física não faz esbater.

Samanta, a enteada de Hélber, tem 18 anos e diz que "Alfama é Alfama". Lembro-me dos tempos em que brincávamos aqui na rua até às tantas e tínhamos uma pessoa da família em cada beco", recorda.

A família reside atualmente no Seixal, na Margem Sul do Tejo, mas todos os anos em junho volta ao coração de Alfama. "Vir aqui é como ir a Fátima", resume, bem disposto, Hélber. Para estar na festa segue o exemplo de muitos vizinhos e reserva estes dias para férias. "Tenho é de vir ao Santo António, nem que seja de muletas. Aliás, já vim", atira, divertido, enquanto suporta as "bocas" futebolísticas da mulher e dos enteados. "Eles são do Benfica, mas eu sou sportinguista e escusam de vir com coisas, que não mudo", assegura.

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