Centro Urbano

Marvila, o bairro das artes que nasceu operário e resiste ao luxo

Marvila, o bairro das artes que nasceu operário e resiste ao luxo

Palco do esplendor industrial dos séculos XIX e XX, Marvila tornou-se numa zona abandonada de Lisboa quando as velhas fábricas fecharam. Agora, renasce das cinzas. E os armazéns decrépitos são hoje polos agregadores de jovens criativos. Mas há projetos imobiliários que ameaçam galgar terreno.


Marvila é hoje o bairro "trendy" de Lisboa, depois de nos últimos anos ter sido tomado por jovens criativos que transformaram espaços vazios em verdadeiras oficinas de artes. De galeristas a designers têxteis, ceramistas, joalheiros ou tatuadores, ao lado de novos restaurantes, que seguem as tendências da moderna cozinha de autor. E das três fábricas de cerveja artesanal que ali se instalaram e funcionam como locais de atração de um público jovem e bom nível cultural. Esta transformação despertou atenções para uma zona da cidade com localização privilegiada, na frente rio e na continuação do Parque das Nações. Algo que preocupa, para já, "moderadamente " os que ali se instalaram.

Nos último anos sucedem-se os anúncios de lofts e projetos de reabilitação de velhos edifícios, heranças dos anos do apogeu industrial, em condomínios de luxo. O mais famoso - Prata Living Concept - tem já construído o seu primeiro de 12 blocos que compõem o projeto. Os preços dizem tudo: de 500 mil euros a 2,5 milhões de euros. (5200 euros por /m2).

Uma realidade que é conhecida de Rita Sampaio e Vasco Cosme, que há dois anos fundaram a Fábrica Moderna. "Isto é uma oficina criativa partilhada", explica a sócia, destacando que ali se disponibilizam aos clientes meios, como ferramentas e mesas de trabalho. "Eles sentem o encanto de estar a trabalhar num sítio diferente de um escritório, onde podem partilhar experiências, fazer barulho e almoçar ou tomar café num jardim", observa Rita Sampaio.

Um retrato confirmado pelos que ali estão instalados. "Estou em contacto com outros criativos e sinto-me em casa. Somos uma família", refere Mafalda Zagalo, 22 anos, designer têxtil, que, graças a esta convivência diária, tem evoluído para outros projetos. "Comecei a misturar bordados com resina, graças aos nossos ourives", conta. É que, segundo os residentes da Fábrica Moderna, o convívio entre criativos estimula a própria criatividade. "Estamos sempre a trocar ideias e técnicas", descreve, sorridente, Jean Michel, um suíço de 38 anos, que constrói pequenas máquinas manuais.

O entusiasmo reina entre os frequentadores do atelier, mas Rita e Vasco estão conscientes de que já anda "gente por aí" a interessar-se pelos espaços. E que a renda que conseguiram há dois anos "hoje já não seria a mesma. "Aqui mesmo ao lado há uns armazéns vendidos a fundos libaneses", observa Vasco, destacando que, "havendo dinheiro, alguém que queira um armazém, compra". Relativamente à resistência a estas investidas, os dois sócios concordam que tudo dependerá do mercado imobiliário. "Se houver nova crise, aguentamo-nos mais uns tempos, se continuar ao ritmo dos últimos anos, será mais difícil", observam.

A par das artes, Marvila tornou-se também um espaço de lazer. Tiago Martins foi dos primeiros a apostar na zona. "Eu vi isto tudo a nascer", conta ao JN Urbano o jovem de 30 anos, que há cinco arrendou um armazém virado para o rio para instalar o Vertigo, a maior infra-estrutura de escalada indoor em Portugal (400 m2). "Na altura, a família e os amigos achavam "um risco" a aposta numa zona tão abandonada. "Na verdade, isto cresceu a um ritmo que até a mim me surpreendeu ", diz. Para já, não sente receio do avanço dos projetos imobiliários. "Com a vida que esta zona ganhou, vai dar para todos", destaca.

Mas Marvila é hoje também o "bairro da cerveja", depois de três marcas - a Dois Corvos, a Musa e a Lince - ali se terem instalado. Susana Cascais, da Dois Corvos, sublinha que, em 2015, quando abriu o espaço, "em Marvila não se passava nada". "Talvez por isso tenhamos sido acolhidos de forma muito calorosa pela população que ainda cá mora", sublinha a empresária. Hoje, em conjunto com as outras duas marcas, promove três festivais anuais e o sucesso é evidente: "Vem gente de todo o lado, famílias inteiras. O bairro fica ainda mais vibrante", conclui.