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Observatório JN: A perspetiva do cidadão

Observatório JN: A perspetiva do cidadão

Para quem vive e sempre viveu nestes concelhos de vocação essencialmente florestal, devido em grande parte à sua orografia de declives acentuados, cedo se apercebeu da sua realidade e quanto era diferente da realidade de outros territórios. E foi nesta dupla dualidade, entre o litoral e o interior e entre a ruralidade e a urbanidade, que o país se foi fazendo e refazendo a ritmos diferenciados, mas ainda assim com valências e especificidades próprias, numa demonstração cabal da capacidade para desenvolver e modernizar os diferentes territórios. E um cidadão de meia-idade já viu e viveu, vezes demais, o drama dos incêndios. Viu e sentiu toda a paisagem à sua volta a mudar para o abandono e para uma ocupação florestal, com densidades e cargas de combustível, que o deixam intranquilo e inseguro.

A perspetiva do proprietário

O cidadão enquanto proprietário de terras, normalmente de pequenas parcelas, vê com enorme dificuldade outras ocupações que não sejam aquelas que lhe possam trazer algum retorno económico num curto ciclo temporal. Porque a realidade é que se optar por espécies de mais lento crescimento, mesmo que mais resistentes aos incêndios, o risco de, entretanto arderem as suas propriedades, é maior.

A perspetiva do empresário

O cidadão proprietário e empresário das madeiras limitou quase exclusivamente o seu trabalho à fileira do eucalipto... e com sucesso. O quase exclusivo agente dinamizador que tem transformado a floresta da região. O negócio dele está cada vez mais assente numa única espécie e, como tal, continua a plantar e a indicar mais do mesmo, apesar da enorme suscetibilidade às chamas.

A perspetiva do técnico

Os técnicos falam de outras espécies florestais e alternativas paisagísticas mais resistentes ao fogo e mais amigas do ambiente. Espécies com nome e reconhecido apreço agroflorestal: pinheiro- -manso, amendoeira, cerejeira, oliveira e madeiras nobres, sobreiro, cortiça, bolota, pastagens e carne. Sim, as nossas florestas podem produzir madeira, energia e resinas, óleos, forragens e gado, mel, cogumelos e turismo, frutos secos e vermelhos e muito mais numa perspetiva de viabilidade económica, com sustentabilidade, com preservação de recursos e com uma notória diminuição da perigosidade aos incêndios florestais.

A perspetiva do autarca

Neste momento, o autarca quer tanto tudo, que corre o risco de se perder em reuniões e documentos. Ao autarca, hoje, exige-se muito e espera-se demais. Tanto, como representante dos cidadãos do seu concelho; tanto, como representante do poder político, mesmo que à escala local; tanto, como municiador de dinâmicas económicas locais; tanto, como responsável máximo da proteção civil; tanto, como mediador, gestor e garante de regras e funcionalidades. Será que não podemos conciliar estes dois mundos num mesmo espaço: produção, proteção, prevenção e valorização? Este é um papel e um desafio que queremos continuar a assumir com toda a determinação e empenho.

*PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CASTANHEIRA DE PÊRA

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