SOS Floresta

Observatório JN: Alterações climáticas tornam visível o problema de fundo dos incêndios

Observatório JN: Alterações climáticas tornam visível o problema de fundo dos incêndios

Após os incêndios de 2017 e 2018, a questão de como podemos gerir o problema dos incêndios florestais continua no ar.

Não olhemos para o problema apenas na perspetiva da emergência e das chamas que é preciso apagar. É preciso analisá-lo na perspetiva da paisagem e da intensidade da frente de fogo. Com as mudanças climáticas a gerar stress na floresta, há mais carga disponível e mais intensidade. É essa intensidade que torna os fogos impossíveis de extinguir quando ultrapassam 10 000 kw/m na frente. Os incêndios de 2017 apresentaram uma intensidade maior que 150 000 kw/m. É impossível extingui-los, por muitos recursos que se mobilizem. É por isso que temos que olhar para a paisagem, onde há margem para melhorar as condições que precisamos para apagar incêndios e proteger a nossa sociedade.

Esta situação gera um grande stress social. A resposta, geralmente, é sempre a mesma: estratégias de defesa perante a possibilidade de um grande incêndio. Isto traduz-se em mais economia de emergência e menos economia florestal. Começamos há muitos anos a apagar incêndios para proteger os ecossistemas e agora protegemo-nos dessas florestas que queimam. O paradoxo é absoluto e demonstra, de forma cruel, a derrota da abordagem seguida até agora: estamos em pior situação do que quando começamos.

Estamos a aplicar uma solução desesperada sobre a consequência do problema, as chamas. E daqui decorre que as paisagens são abandonadas, carregadas de combustível, gerando mais intensidade e agravando o problema. A economia florestal drena para a economia de emergência e o problema piora. Politicamente, venderemos os bons anos da meteorologia como êxitos e procuraremos culpados para os anos meteorologicamente maus. Mas, no final da estrada, teremos o problema da continuidade da paisagem combustível. Foi aí que tudo começou, com a mudança socioeconómica que permitiu uma nova paisagem e com a mudança climática, que a torna cada vez mais combustível e visível. É um beco sem saída.

Estamos perante uma situação nova, à qual não podemos responder com ideias velhas. A extinção dos incêndios é e será necessária para que os incêndios não queimem toda a paisagem e possamos defender os nossos interesses como sociedade, mas apenas se essa paisagem permitir a extinção.

Temos que ajudar as nossas florestas e os nossos bombeiros com gestão da paisagem. Não é uma questão de optar entre paisagem ou de corpo de bombeiros. É conseguir uma paisagem também para os bombeiros. A estratégia de extinção de incêndios passa por melhorar a paisagem e, assim, ser possível defender os interesses do ecossistema, da propriedade, da proteção civil. Estes são tempos para construir conhecimento perante a mudança global. Não podemos permitir mais anos de espera pelo tempo benigno como estratégia de proteção civil. Uma situação de emergência nunca é boa para construir um futuro. É preciso planificar, entender onde estamos e como podemos criar uma paisagem resiliente aos incêndios de amanhã. Não podemos continuar a lamentar-nos, porque não estamos a viver tempos imprevisíveis, estamos a viver tempos vertiginosos em que podemos gerir e não desperdiçar pela espera.

*ENGENHEIRO FLORESTAL E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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