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Observatório JN: O maior disparate em 800 anos

Observatório JN: O maior disparate em 800 anos

Muito tem sido dito e escrito sobre a campanha nacional lançada pelo Governo para a limpeza dos terrenos junto a casas e estradas, de modo a cumprir a legislação em vigor. A propósito desta campanha o Ministro da Agricultura mostrou-se convicto, com algum orgulho, que em 800 anos de história de Portugal nunca teria sido levada a cabo uma operação de "limpeza" com esta dimensão. Talvez tenha razão quanto ao caráter inédito da operação, mas não quanto aos benefícios da mesma.

Na verdade as regras que se querem impor têm já 14 anos desde que foram introduzidas pela primeira vez na legislação portuguesa. Durante este período surgiram vários estudos que referem as vantagens da manutenção de um coberto denso, sobretudo tratando-se de árvores adultas de espécies folhosas, relativamente à criação de espaços abertos tal como é preconizado pela legislação em vigor.

A explicação é simples: espaços abertos potenciam o crescimento do mato na primavera e a sua secagem no Verão, ou seja melhores condições para a propagação do fogo. O efeito é ainda mais grave se pensarmos que as espécies que melhor aproveitam os espaços abertos são espécies exóticas invasoras, como as acácias. Os efeitos benéficos quando existem são efémeros, porque ninguém imagina que os proprietários estejam dispostos a suportar todos os anos os custos consideráveis que este tipo de "limpezas" acarretam.

Este ano uma parte da despesa é paga com as árvores cortadas, mas nos próximos anos já não haverá esse paliativo. O resultado é o que se vê ao longo das estradas do país: árvores úteis para a prevenção de incêndios e com grande valor paisagístico e patrimonial (carvalhos, oliveiras, sobreiros, etc.) transformadas em cavacas para a lareira. A explicação para o lançamento precipitado desta campanha arboricída é a do costume: o imediatismo politico que é regra no nosso país. Em vez de se consultar quem sabe, com algum tempo para produzir medidas amadurecidas e por isso mais sensatas, produz-se um enorme disparate para mostrar ao eleitorado que se está a fazer alguma coisa. E assim vai o pós-2017.

Professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra

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