SOS Floresta

Observatório JN: Prevenção estrutural tem sido esquecida

Observatório JN: Prevenção estrutural tem sido esquecida

Os incêndios florestais em Portugal têm sido, nas últimas décadas, constante motivo de preocupação para todos os agentes que concorrem para a segurança das populações. A severidade destes eventos sazonais tem acompanhado as alterações climáticas e confirmado a previsão que, nesta região do globo, progressivamente irá aumentar o número de períodos de seca extrema, favorável ao desenvolvimento de incêndios de grandes dimensões.

As alterações climáticas associadas à cada vez mais intensa desertificação demográfica do interior, originando o acumular de biomassa na paisagem e o desordenamento do território, permitiu o desenvolvimento da floresta de forma desordenada e a construção de habitações isoladas, tendo como consequência uma mistura explosiva que justificam os acontecimentos de 2013 e 2017, ainda tão presentes na nossa memória coletiva.

Há três décadas que o que acabei de escrever é do conhecimento geral e passou a fazer parte do senso comum e não só do meio académico e político.

Atualmente, o Sistema Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios (SNDFCI), assenta em três pilares muito importantes: o primeiro (na minha opinião o mais importante, mas com muito pouca visibilidade), a prevenção estrutural, o segundo referente à vigilância, deteção e fiscalização e o terceiro respeitante ao combate, rescaldo e vigilância pós-incêndio.

Devido aos grandes incêndios e à sua maior visibilidade, o combate tem sido alvo de todas as atenções, sendo os outros dois pilares, não diria esquecidos mas quase. A prevenção estrutural tem sido sistematicamente esquecida.

Atualmente os Bombeiros Voluntários Portugueses representam o combate a incêndios florestais em Portugal. A título de exemplo, 443 é o número de incêndios florestais registados no dia 15 de outubro de 2017, o pior dia do ano, que ceifou a vida a 45 pessoas. No período de 24 horas estiveram no terreno mais de cinco mil operacionais, maioritariamente efetivos dos Corpos de Bombeiros Voluntários. Alguns incêndios tomaram proporções atípicas, considerados "incombatíveis". Em 2017 passámos a um novo patamar, nada voltará a ser igual, desde a perceção do risco por parte das populações, assim como a moral dos agentes de proteção civil que concorrem para tornar o risco de incêndio florestal aceitável.

Passado um ano, preocupa-me o futuro. Como Cidadão e Comandante de Bombeiros, quero apenas que o ano de 2017 não se repita!

Preocupa-me que o passado seja esquecido e que estejamos a construir um SNDFCI, a partir da "tábua rasa", aparentemente sem doutrina, suportado apenas por muitos contributos académicos e sem bases que sustentem a sua aplicabilidade a médio ou curto prazo. O combate será sempre uma atividade sazonal que obriga a dispositivos reforçados de acordo com os índices de risco. Não iremos pagar enquanto contribuintes um valor demasiado elevado para "apagar" um sistema que assenta numa estrutura local de Bombeiros? Para passarmos a ter uma estrutura nacional muito pesada e que por esse motivo perderá a capacidade de se adaptar às diferentes realidades do País?

Curiosamente na Califórnia também morrem civis e operacionais nos incêndios mais severos, mais que em Portugal. Será que tudo o que construímos nos últimos 30 anos está assim tão errado? Precisamos realmente de especialistas estrangeiros para nos dizerem o que já sabemos?

Apostar em melhorar o que já existe de bom talvez seja um caminho mais inteligente para um sistema feito de pessoas e já agora torná-lo também mais eficaz e economicamente mais eficiente, pois parece-me que o que aí vem, vai aumentar consideravelmente os custos do terceiro pilar do SNDFCI.

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