Rali de Portugal agita economia das cidades

Rali de Portugal agita economia das cidades

Hotelaria, restaurantes e comércio dos grandes centros são os que mais lucram. Prova-rainha do desporto automóvel arranca esta quinta-feira. Porto volta às lides, com superespecial que promete chamar milhares de aficionados à Baixa

Os números do Automóvel Clube de Portugal são claros. Um total de 1,2 milhões de pessoas dispersas pelos 13 municípios por onde passa o Rali de Portugal deixaram, no ano passado, 60 milhões de euros em comidas e dormidas. Este ano, a expectativa continua alta. O Porto, com uma superespecial, regressa ao palco da prova. Há unanimidade: as cidades são quem mais ordena no que toca ao retorno económico da prova. O rali arranca esta quinta-feira (17) em Lousada e termina no domingo (20) em Fafe. A Câmara do Porto repete a presença de 2016 com a superespecial citadina que fará os carros percorrer as principais artérias da Baixa da Invicta. Um investimento de 500 mil euros dos cofres municipais para uma transmissão em direto para mais de 100 países. A repetirem-se os números de 2016, serão 80 mil espectadores nas ruas.

Em Braga, o sucesso do ano passado (este ano a cidade não integra o calendário da prova) está espelhado nos números divulgados por um estudo do Centro Internacional de Investigação em Território e Turismo, da Universidade do Algarve: cerca de sete milhões de euros de retorno económico. "Um evento desta envergadura é sempre relevante para a dinamização do comércio da cidade", destacou ao JN Nuno Camilo, presidente da Associação de Comerciantes do Porto, que defende para a cidade "uma multiplicidade de iniciativas e com a capacidade de angariar eventos para outros tipos de turismo, que não só o low--cost. É essa a nossa aposta e é isso que desejamos, quer para o comércio quer para toda a cidade".

No contexto da Região Norte, o Porto e Matosinhos acabam por retirar muitos dividendos do Rali de Portugal devido à forte oferta hoteleira que não existe nos restantes municípios anfitriões da prova. A Exponor continua como o centro de todas as operações da organização. Luísa Salgueiro, autarca de Matosinhos, salienta que esta é "uma das grandes apostas estratégicas da Câmara, uma vez que, diz, "temos bem a consciência do enorme impacto que este evento tem no tecido económico do concelho".

A autarca matosinhense socorre-se de um estudo de 2016 para fixar o retorno económico do concelho em cerca de cinco milhões de euros. Números que fazem "brilhar os olhos" de Fernando Sá Pereira, presidente da Associação Empresarial de Matosinhos. "Nesta altura, os hotéis de Matosinhos e de Leça já estão quase esgotados. E na restauração, apesar de não ser uma época alta, a procura também aumenta. É uma mostra de Matosinhos para o Mundo, É bom para o negócio e bom para os habitantes. Envolve toda a gente", sublinha.

Esta realidade mais urbana choca, contudo, com a perceção que existe nos concelhos onde os carros só se veem nos troços de serra e longe do comércio. Em Fafe, local mítico da prova - que a acolhe na totalidade domingo, último dia - o responsável da Associação Empresarial é frio na análise. "O rali tem enorme impacto no nome de Fafe e é o evento que mais gente traz ao concelho, mas não acredito nos estudos que falam em números muito grandes. Há muito dinheiro que fica cá, mas não tanto como apregoam", observa, lamentando que na área desta associação, Fafe e Cabeceiras de Basto, não haja um hotel. "Por isso, Guimarães e Braga colhem muitos frutos do investimento de Fafe", revela Hernâni Costa.

Apesar deste lamento, e de se mostrar disponível para se sentar à mesa para uma reflexão profunda, Hernâni Costa assume que "as casas de turismo rural estão lotadas, os hipermercados trabalham bem com a venda de produtos para o farnel que se leva para a serra, mas o resta lucra pouco ou quase nada". Sorte diferente tem Lousada. As primeiras aceleradelas do rali com o cronómetro a contar são dadas no circuito que fica praticamente no centro da cidade. "Este é um evento muito importante para o concelho e tem um benefício que duplica o investimento feito", realça Jorge Simão, presidente do Clube Automóvel de Lousada, proprietário do circuito. "Os cafés em volta do recinto esgotam tudo o que têm para venda e para os comerciantes isso é muito bom. Toda a gente fatura com a passagem do Rali", assegura, estimando para este ano a presença de 15 a 20 mil pessoas na cidade.

Ali ao lado, no circuito de Baltar, em Paredes, é feito o shake-down, uma espécie de aquecimento para a prova a valer. Ainda assim, com impacto local. "Gera riqueza e a passagem do Rali por Paredes corresponde a alguns milhares de euros", admite Pereira Leite, presidente da Associação de Empresas de Paredes, ciente, no entanto, de que o impacto maior "é a imagem que os adeptos do rali levam. E essa imagem ajuda a que voltem para nos visitar", concluiu.

* com Célia Soares e Roberto Bessa Moreira

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