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Sem rede e com floresta, Barrenta é barril de pólvora

Sem rede e com floresta, Barrenta é barril de pólvora

Simulacro de evacuação em caso de incêndio no âmbito do programa "Aldeia segura, pessoas seguras" revelou várias fragilidades: sino da aldeia não se ouve em todos os locais e rede SIRESP não chega ali.

O simulacro de incêndio estava marcado para as 10 horas de sábado, em Barrenta, concelho de Porto de Mós, mas a maioria dos habitantes já se encontrava junto do abrigo, no centro cultural, algum tempo antes do oficial de segurança, Ricardo Pereira, começar a tocar a rebate o sino da igreja. A aldeia com 47 habitantes foi escolhida por não ter rede de comunicações móveis, o que constituiria um desafio mais complexo para os bombeiros caso o fogo fosse real, e por ter 250 hectares de floresta nas proximidades.

Face à impossibilidade de utilizar o SIRESP (operadora do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança) e telemóveis, o segundo comandante do CDOS (Centro Distrital de Operações de Socorro) de Leiria, Mário Cerol, diz que os bombeiros teriam de utilizar walkie talkies, ou rádios da rede operacional dos bombeiros, para poderem comunicar . "Provavelmente, o posto de comando não seria aqui, mas num sítio onde essas comunicações fossem possíveis".

Caso o incêndio fosse de "grande envergadura", Mário Cerol explica que teria de contactar a Autoridade Nacional de Proteção Civil para acionar uma estação móvel, por forma a possibilitar as comunicações via SIRESP através de satélite. A mais próxima encontra-se em Castelo Branco. "Nos teatros de operações, além das dificuldades, às vezes, existem estes constrangimentos de que não estamos à espera."

Rede móvel só a cinco quilómetros

O oficial de segurança do programa "Aldeia segura, pessoas seguras" revela que a povoação mais próxima com rede móvel fica a cinco quilómetros. Contudo, é possível apanhar sinal a 500 metros de distância, num eucaliptal, onde é frequente encontrar habitantes da aldeia a fazer chamadas.

Apesar de a população ter telefone fixo, conta que, há uns meses, um senhor morreu numa obra e foi muito difícil comunicar com o 112, porque pretendiam que a pessoa que fez a chamada permanecesse junto ao corpo, para dar informações, mas não era possível.

O simulacro revelou outras fragilidades. O som do sino não foi ouvido por todos os habitantes da aldeia. Um problema que já tinha sido identificado num simulacro de incêndio em Covão da Carvalha, também em Porto de Mós.

"Ponderámos colocar lá uma sirene, mas alguém perguntou: "e se falta a luz?"", contou o presidente da Câmara, Jorge Vala, na fase de balanço. "Talvez se pudesse usar um megafone", propôs Mário Cerol.

A GNR lamentou a dificuldade sentida para convencer duas habitantes a abandonarem as casas. "Há sempre alguma relutância em deixar o que é delas, mas, se se tratasse de uma situação real, não haveria tempo para tanto diálogo", alertou. O "processo negocial" foi mais demorado do que seria desejável, pelo que uma das pessoas acabou por não ser evacuada de autocarro, como sucedeu com a restante população.

Catarina Pires, 35 anos, confessa que, em caso de incêndio, talvez optasse por ficar em casa, por o filho mais velho, de 8 anos, sofrer de problemas respiratórios, que se poderiam agravar com o fumo. "E depois como é que os mantinha aqui [abrigo] quietos?", questiona. "A minha casa é segura, pois tenho um terraço a toda à volta e não tenho grandes árvores", explica. Já Emília Pinheiro, 87 anos, não tem dúvidas: "Se houver um incêndio, tenho de fugir". Para onde? "Para onde não estivesse o fogo."

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