Reportagem

Viana está cada vez mais no caminho dos turistas

Viana está cada vez mais no caminho dos turistas

Viana do Castelo atrai cada vez mais visitantes, fortalecendo negócio do alojamento local. Em 2018, foram registadas 94 unidades. Cinco anos antes, havia apenas três. Um terço está localizado fora do centro. A "culpa" é sobretudo dos milhares de peregrinos em trânsito para Santiago de Compostela.

Omar foi quase toda a vida a sua casa. E quando procurou em Portugal um local para gozar a tranquilidade da reforma ao lado da companheira de sempre, o holandês Aucke Ijff, de 71 anos, escolheu viver perto do oceano. E criar um alojamento local (AL) para receber hóspedes como família. O seu hostel - guest house Casa Rada, em Carreço, Viana do Castelo, é um dos 94 do concelho, o qual, à semelhança de todo o país, atravessa uma boa maré em termos turísticos. Desde 2016, o número de unidades de AL em Viana quase triplicou e a expectativa é que continue a crescer. Em cinco anos, o mercado explodiu. A "culpa" é, em grande medida, dos peregrinos e do Caminho de Santiago.

A Casa Rada de Aucke, antigo capitão de um navio pesqueiro que durante cerca de 30 anos andou ao bacalhau, à solha e ao pregado no Norte da Holanda e no Dubai, pode ajudar a explicar o que torna este tipo de alojamento mais atrativo para o turista. "A minha casa é muito mais do que uma casa", diz o anfitrião, explicando que o "segredo" poderá estar no próprio nome dos seu AL. "Descobri que Rada é um nome eslavo de mulher que significa "feliz". Portanto, esta é uma "happy house" (casa feliz)".

O AL, criado por Aucke e pela mulher Jacqueline em janeiro de 2016, situa-se perto da Estrada Nacional 13 e já vai na terceira unidade. No total as Casa Rada 1, 2 e 3 têm capacidade para receber 16 pessoas em simultâneo. Em todas se vê e ouve o mar. E na principal, onde o casal reside, situada no número 25 da Travessa da Vinha, há uma varanda com vistas amplas no 1.oºandar que Aucke gosta de mostrar aos visitantes e que utiliza para meditar. "O mar está no meu coração", justifica.

A realidade do negócio do alojamento local em Viana do Castelo não ´é, ainda assim, toda a mesma. De acordo com a Autarquia, esta é uma segunda atividade alicerçada na ideia de aproveitar património. Ou seja, quem aposta fá-lo porque quer reconstruir uma segunda ou terceira habitação e rentabilizá-la. Há uma maior dinâmica no litoral, à boleia dos milhares de peregrinos que todos os dias percorrem o Caminho Português de Santiago. Dois terços dos alojamentos estão fora da zona urbana.

"A nossa casa já é conhecida entre os peregrinos. Vêm cada vez mais. Desde que abrimos o número já duplicou", diz o proprietário holandês, indicando que em 2018 receberam cerca de 100 caminhantes. "Em 2019 deverão aparecer muitos mais e provenientes de todo o Mundo", afirma.

Durante o périplo e como Aucke tinha recordações de há 52 anos do porto de Leixões, onde atracava um navio de carga em que trabalhou, o casal acabou por vir parar a Portugal. De Leixões subiu mais para Norte e, ao chegar a Viana do Castelo, encontrou o que procurava."Foi a Jacqueline que escolheu. Disse: este é o lugar onde quero viver. É um sítio bonito e tranquilo", recorda.

Daí, procuraram uma imobiliária para encontrar uma casa e foi Carreço e o seu mar à vista que os convenceu. "Em três meses mudamos a nossa vida para cá. Começamos a viajar em novembro e em janeiro estávamos aqui. Sem dúvidas nenhumas. Apenas seguimos o nosso coração", conta o antigo capitão, referindo que depois de instalados em território português se inspiraram no "bed and breakfast" (dormida e pequeno-almoço) que já tinham experimentado em sua casa na Holanda, para criar um AL. "Gostamos muito da experiência em Amesterdão e por isso quisemos repetir cá". Quando chegou a idade de reforma, decidiu viajar pela Europa com a mulher numa autocaravana. "Estávamos saturados de Amesterdão. Vivíamos mesmo no centro e havia demasiados turistas. Muito barulho, gente a beber, confusão, não havia sossego", lembra.

Goo Jong Mtu, estudante de Medicina sul-coreano, de 32 anos, viveu, por estes dias, a sua estadia na Casa Rada 1, entre o aturdido e o divertido. Com dores no joelho, após dias de caminhada a partir do Porto, rumo a Santiago de Compostela, o peregrino foi submetido a uma inesperada sessão de reiki por parte de Aucke. Mas deixou-se levar. Nunca tinha experimentado aquela terapia alternativa, em que o capitão holandês se formou mestre. "Prefiro este tipo de alojamento aos hotéis. É mais familiar e também fica mais perto da estrada", afirmou. E quanto ao porquê de estar a fazer "o caminho", disse: "Não tem qualquer motivo religioso. Não tenho religião. Vim porque gosto de caminhar e vou-me encontrar com um amigo em Santiago"

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