Jovens partilham casa para garantir um teto na cidade

Jovens partilham casa para garantir um teto na cidade

O coliving está em franco crescimento nas principais cidades mundiais e vai ao encontro direto da forma de viver da "geração millennial", que privilegia a partilha em vez da posse. Por cá, o conceito está a começar a ganhar terreno, com vários espaços já em Lisboa e alguns em projeto para o Porto.

Com as rendas da habitação a atingirem, nos últimos anos, valores inimagináveis, ficando apenas ao alcance das bolsas muito recheadas, há jovens que estão a encontrar caminhos alternativos para poderem viver nos meios urbanos. Reduzir o espaço privado e partilhar as áreas comuns é o conceito do coliving, a nova tendência que já está a dar os primeiros passos em Portugal, mas, segundo um estudo desenvolvido pela consultora JLL, em parceria com a Joyn, tem um enorme potencial de crescimento. Estima-se que a apetência por este nicho de mercado faça com que a oferta ideal nos próximos anos, nas áreas do Grande Porto e Grande Lisboa, se situe entre as 16 e as 18 mil camas.

Depois das bicicletas, trotinetas, automóveis ou escritórios de trabalho comuns (cowork), a partilha de casa é o próximo passo para a "geração millennial" - conceito sociológico que define os indivíduos nascidos após o início da década de 1980 e até 1995, uma época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade económica. "Ao contrário da geração anterior, que se seguiu aos "baby boomers [nascidos após a Segunda Guerra Mundial até 1964], estes são jovens muito mais desligados da posse. Querem ter alguma coisa, mas de uma forma experimental. Não é o "eu tenho, porque amealhei" é "eu tenho porque experimento". E isso muda tudo na sua forma de estar", explica Maria Empis, diretora de consultoria estratégica e investigação da JLL.

Em Portugal, o fenómeno tem ainda pouca expressão, mas em Lisboa já se encontram projetos em funcionamento. E com hóspedes de todo o Mundo. No Samesame, em plena Baixa Pombalina, o JN Urbano encontrou Julia Krause, de 29 anos, oriunda da longínqua Sibéria. "Sou designer gráfica e consigo trabalhar a partir de casa. Isso dá-me a hipótese de trabalhar onde gosto de viver", adianta, acrescentando que a convivência diária com outros hóspedes a faz sentir "como em casa". "Temos as nossas reuniões, jantares temáticos, aulas de ioga... Isso cria um sentido de comunidade", explica. Julia personifica o exemplo de quem procura o coliving como forma de viver numa cidade, numa época em que tudo está em mudança, mesmo ao nível do emprego. "As pessoas deixam de querer ter uma casa fixa ou até um posto de trabalho de longa duração. Querem experimentar trabalhos diferentes, viver em qualquer lado e não estar fixas a uma casa ou até a um país", adianta Maria Empis.


E aqui entra a outra característica deste novo modelo de habitação: o tudo incluído. Ou seja, os hóspedes pagam um valor mensal que engloba todos os gastos correntes, como a eletricidade, a água, o gás, ou o indispensável Wifi nos dias de hoje. "Vim para Portugal para fazer o doutoramento em Arquitetura. Comecei a procurar onde morar e achei bem interessante este conceito. O valor da renda não era muito alto mas, principalmente, não tinha de me preocupar com a burocracia de fazer contratos com fornecedores de serviços", descreve Alex Nogueira, brasileiro, que ocupa um dos espaços da Smart Studios na Ajuda.

Segundo o estudo da JLL, o coliving é sobretudo procurado por nómadas digitais - pessoas que ficam nas cidades por períodos de tempo mais curtos -, os expatriados atraídos pelas recentes multinacionais que se estabeleceram no país e os empreendedores internacionais que se mudaram temporariamente. Maria Empis dá ainda exemplos de profissionais que têm necessidade de mobilidade frequente dentro do próprio país. "Um jovem de Lisboa, que quer trabalhar no Porto, mas quer chegar lá com as malas, sem ter de se preocupar sequer com contratos, arranjar mobílias, ou roupas de cama. Além disso, não conhece ninguém na nova cidade e, ao partilhar uma casa, vai identificar-se com uma certa comunidade", destaca.

No Samesame (um coliving criativo, que nasceu de uma startup) de Lisboa, a mistura de culturas é evidente. Além da siberiana Julia, o JN encontrou Anika, de 29 anos, e Gaynes, de 34 , originários de Seattle, nos Estados Unidos, e a francesa Shayana Attia, de 34 anos. Uns vivem em pequenos estúdios do edifício reconvertido, outros têm apenas um quarto e partilham a cozinha e a sala de estar. "É bem melhor do que estar num hostel onde só entregamos e recolhemos as chaves na receção. Encontrámos aqui a nossa pequena família", explica Anika.

No caso de Shayana, professora de ioga e mestre de reiki, havia necessidade de viver em Portugal por uns tempos. "Comecei a procurar apartamentos, mas quando descobri que havia a hipótese de ficar no centro da cidade, num regime de "tudo incluído", gostei logo da ideia", afirma. Já na Smart Studios, na zona da Ajuda, Inês Carvalho é simultaneamente hóspede e colaboradora da empresa, que está a expandir-se rapidamente. "Eu sou de Alverca, mas estava a viver em Londres e quis regressar. Candidatei-me a este lugar na empresa e acabei por eu própria alugar um estúdio. Foi juntar o útil ao agradável", conta ao JN Urbano. Segundo o estudo da JLL, na ainda pouca oferta disponível em Lisboa, os preços médios variam entre os 600 e os 1400 euros mensais , mas o JN Urbano encontrou valores de 500 euros (Smart Studios) e de 2000 (Samesame).

Maria Empis explica que no estudo da JLL foram inquiridas 300 pessoas, das quais 50% vivem atualmente em apartamentos partilhados e afirmam que só o fazem por não terem outra escolha. Destas, 75% pagam menos de 600 euros de renda mais as despesas. "A oferta é de má qualidade e estavam dispostos a pagar mais se houvesse melhores condições. Um bom coliving seria um sítio onde estavam dispostos a pagar mais", conclui.