Lojas de produtos turísticos à beira do desespero

Lojas de produtos turísticos à beira do desespero

No Porto e em Lisboa, espaços que vendem artesanato português, ímanes para frigoríficos, postais e outros produtos tradicionalmente só procurados por visitantes estrangeiros passam dias a fio sem fazer uma única venda. Muitos já fecharam portas, outros admitem fazê-lo muito em breve.

Cresceram como cogumelos nos últimos anos e rapidamente tomaram conta das ruas. Artesanato, ímanes para os frigoríficos e produtos regionais tornaram-se nos símbolos maiores do boom turístico que fez das lojas de recordações presença maioritária nas zonas mais visitadas por estrangeiros. Com a pandemia, o panorama mudou e hoje são muitas as que já fecharam e outras que, sem retoma do turismo à vista, se preparam para o fazer, conforme o "JN Urbano" constatou no Porto e em Lisboa.

É com um sorriso tímido que Ajit Lakhani, gerente da Porto Lovers, na Rua das Flores, na Invicta, confessa que "às vezes, passam 10 ou 15 dias sem se vender quase nada". Ali, todos os produtos são "100% portugueses" e Ajit partilha, com orgulho, a qualidade dos azulejos pintados à mão, mas lamenta que faltem os clientes para conquistar.

"Estamos habituados a trabalhar seis meses para poupar nos outros seis em que não há tanto turismo. Mas agora está difícil", diz, explicando que numa rua habituada ao corrupio dos estrangeiros, fazem falta atrações para os consumidores nacionais. "Aqui, praticamente só há lojas viradas para o turismo, alojamentos locais e restaurantes. Se houvesse mais lojas de roupa e calçado, talvez passassem por aqui mais portugueses", aponta.

Desce-se a Lisboa e o retrato traçado é igual. No Largo de Santo António da Sé, em Alfama, a loja de souvenirs Gaivota Citadina por esta altura já deveria estar a abarrotar de turistas, mas está vazia. Os tuk-tuk começam a regressar aos poucos a um dos bairros da capital que atrai mais visitantes, mas nas ruas poucos passam. "Alfama está irreconhecível. No verão, entravam centenas de pessoas diariamente na loja. Agora, há dias mesmo sem ninguém", lamenta Inês Sousa.

Voltando ao Porto, o cenário de desânimo também toca Paresh Prabhudas, o proprietário da Bijusol, que veio para Portugal após a independência de Moçambique. Com a mulher, Nila Harilal, começou por trabalhar no ramo dos acessórios de moda e "decidiu mudar" quando se deu o boom do turismo. Agora, o cenário "é assustador". "Em 70% dos dias nem sequer abrimos a caixa. Em relação ao ano passado, é uma queda de 98%", lamenta, adiantando que "mesmo que os portugueses comprem um ou dois postais, não chega para o negócio". Resta "acreditar que as coisas vão melhorar quando reabrirem as fronteiras". Até lá, o casal tenta atrair os clientes nacionais.

"Trouxemos alguns acessórios de moda, para ver se ajuda e a minha mulher, que é a rainha da bijutaria, vai fazendo fitas para os óculos", diz Paresh, confessando que não sabe como seria "se tivesse de pagar uma renda".

A Rua das Flores está de tal forma diferente que, num dia de semana, há pelo menos três lojas de souvenirs de portas fechadas. É o retrato de uma artéria agora "quase vazia", como descreve Hemendra Balu, o português de origem indiana à frente da Casa Nunes, que em tempos foi uma queijaria e agora vende lembranças. "Não conseguimos vender este tipo de artigos para as pessoas do Porto e já passaram dias em que não entrou um cliente".

O toque de esperança chega por Inês Sousa, a funcionária da Gaivota Citadina, em Lisboa, que acredita que "não vai ser sempre assim e que em agosto vai melhorar". Usa o otimismo para combater a solidão dos dias que se repetem sem clientes na loja. Na Rua Augusta, vazia de turistas, impera um sentimento mais negativo. "Quando não aguentar, fecho a porta", diz Carlos Vaz, que vende souvenirs naquela artéria da Baixa Pombalina há 15 anos.

"Houve dias que atendia 10 ou 15 pessoas. Durante a pandemia, cheguei a ser o único aberto na rua, mas pelo menos estava ocupado", recorda. Agora, vende "um postal ou outro". "Por este andar, os postais vão virar peças de museu", lamenta. Recentemente, começou a vender máscaras, de várias cores e desenhos, algumas com símbolos de Portugal, uma espécie de souvenir adaptado à pandemia. "Temos de nos readaptar e vender o que as pessoas precisam, porque se isto continuar assim poucos vão aguentar", lamenta.

Mamon Or-Rashed, também dono de uma loja de souvenirs, já só abre duas horas por dia. "Agora, não vendo nada. Pondero fechar temporariamente, até os turistas voltarem", lamenta.

A presidente da União de Associações do Comércio e Serviços de Lisboa, Maria de Lourdes Fonseca, alerta que "na Baixa havia muitas lojas que dependiam 90% do turismo e que estão em sérias dificuldades". "Além das lojas de souvenirs há outras que só eram visitadas por turistas. Há quem chegue ao fim do dia sem nada na caixa registadora", assegura.

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