Reportagem

Murtosa lidera pelotão nacional das bicicletas

Murtosa lidera pelotão nacional das bicicletas

A Murtosa é o concelho onde mais se pedala em Portugal, com 17% da população a usar as duas rodas para chegar ao trabalho ou à escola. Acima da média europeia que o Governo quer que o país atinja até 2030.

A Murtosa lidera o pelotão dos concelhos que elegeram a bicicleta como modo de deslocação urbano, segundo o Bike Friendly Index, um índice que mede o grau de preparação dos municípios portugueses para usarem a bicicleta enquanto modo de transporte.

Para este trabalho, David Vale e António Pedro Figueiredo, do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade de Lisboa, analisaram cinco dimensões: declive, ambiente construído, infraestruturas, compromisso político e utilização da bicicleta.

O pódio do continente é liderado pela Murtosa (6,08 pontos possíveis em 10), seguido por Lisboa (5,84 pontos) e por Vila Real de Santo António (4,92 pontos). Se ordenarmos os resultados por capitais de distrito, a mais bem classificada é Lisboa, com 5,84 pontos, seguida do Porto, com 3,94, e Aveiro, com 3,9. Vila Real, com 1,84, fica no final da tabela.

O resto do país ainda tem de pedalar muito para alcançar a Murtosa, onde 17% dos residentes vão, diariamente, de bicicleta para o trabalho ou para a escola. Ali, usar as duas rodas "não é moda, mas tradição", explica o presidente da Câmara, Joaquim Baptista. O autarca não quer que a bicicleta seja apenas "o ginásio de fim de semana", mas sim "parte da solução de mobilidade sustentável".

A estratégia tem passado, desde 2005, pela construção de infraestruturas que potenciem aquele "valor identitário" da população - que há bem mais de um século usa a bicicleta como meio de deslocação - aproveitando a orografia plana do território e proximidade entre centros urbanos. Existem já 50 quilómetros de ciclovias (metade são vias ecológicas cicláveis para contemplar a natureza e a outra metade são pistas urbanas), ao mesmo tempo que foram colocadas dezenas de veículos em escolas, hotéis, centro de interpretação e junto à Câmara. O investimento atinge os dois milhões de euros e ainda há trabalho a fazer. Uma das próximas apostas é na intermodalidade, procurando alcançar acordos para que as bicicletas sigam em autocarros e comboios da região.

Nas ruas da vila, já ninguém estranha ver passar o vice-presidente da Câmara, Januário Cunha, ou a vereadora Fátima Arede de bicicleta. Orgulham-se de dar o "exemplo" do que querem incentivar.

Muitos habitantes fazem-no, como a bancária Ana Maria Silva, 48 anos, "por opção". Prefere pedalar 15 minutos a pegar no carro, para chegar ao trabalho. Também António Silva, 54 anos, motorista nos bombeiros, usa a pasteleira "esmurradinha", que herdou de um familiar, para ir para o quartel. "É mais prático, mais fácil de estacionar e faz bem à saúde", diz. Isabel Duarte, assistente operacional no centro escolar da Saldida, 56 anos, assume que "detesta" conduzir. Vendeu a viatura há ano e meio e ainda não sentiu a falta. "A bicicleta é o meu único meio para trabalhar, fazer compras e passear, com chuva ou sol". O número de utilizadores, garante, "tem aumentado".

A nível nacional, menos de 1% da população, porém, usa a bicicleta para as deslocações. O Governo quer que, até 2030, sejam 7,5%, alcançando a média europeia. Para isso, apresentou uma Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa, com 51 medidas, que incluem a construção de ciclovias, incentivos fiscais para bicicletas elétricas e até alterações ao Código da Estrada. A ideia é, também, meter um travão à sinistralidade.

A intenção, explica o Governo, é promover a saúde, fortalecer a economia, criar emprego e diminuir a poluição. Pela frente há muitas barreiras a derrubar, desde preconceitos a cidades com vias pensadas quase exclusivamente para os carros.

"Há uma cultura agarrada ao automóvel. Tem havido muito pouco investimento e compromisso político na bicicleta", diz David Vale, que espera que a estratégia nacional ajude a alterar a realidade que conhece: apenas 360 dos perto de 1000 quilómetros de ciclovias que existem no continente, por exemplo, são urbanos

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