Reportagem

"Normalidade" voltou a medo nos transportes

"Normalidade" voltou a medo nos transportes

Decretado o final do estado de emergência, os autocarros e metros do Porto e Lisboa regressaram, na última semana, ao quotidiano possível. Sem o movimento do período pré-pandemia e com muitas medidas de proteção e segurança para os (poucos) passageiros, reina ainda a incerteza dos novos tempos.

Um jovem casal aproxima-se da entrada da estação de metro da Casa da Música, no Porto, com a filha pequena pela mão. Junto ao terminal onde se juntam paragens de autocarros e praças de táxis, os três descem lentamente a escadaria de acesso à plataforma, aproximam-se da máquina de venda de títulos de transporte e tateiam as opções de viagem quase a medo, apenas com a ponta dos dedos. Cartão Andante recolhido, dirigem-se a um recipiente público de gel desinfetante estrategicamente instalado a centímetros dos aparelhos de validação - há 70 espalhados por 30 estações.

De máscara sempre posta, alcançam depois as escadas rolantes que os levarão ao cais onde aguardarão breves minutos por uma carruagem que os leve até Campanhã. Há pouco menos do que duas dezenas de pessoas a esperar vez, todas espaçadas entre si, todas com proteção facial, algumas com luvas, poucas com viseiras.

Dentro da composição, é respeitado o intervalo de lugares, apenas dois por cada quatro assentos, e ninguém remove as máscaras. Quem viaja do pé, guarda espaço de segurança em relação ao passageiro seguinte. "Temos de ter o máximo de cuidado, por nós e pelos outros", diz Cláudia Silva. O marido, Saul Moreira, concorda: "É uma questão de respeito, isto ainda não passou."

O "isto", nas palavras de Saul, é a pandemia de covid-19, que obrigou a confinamento total desde o decretar do primeiro estado de emergência, a 17 de março, durante cerca de um mês e meio. Apenas nesta primeira semana de maio, segundo decisão do Governo e debaixo de regras muitas próprias, a reabertura da vida em comunidade foi tomando caminho, com os transportes públicos a não fugirem à exceção e a registarem procura mais elevada, ainda assim não tão intensa como no período pré-isolamento.

Quem viaja de metro e de autocarro, no Porto ou em Lisboa, está sujeito a medidas obrigatórias de precaução. No caso da rede da Metro do Porto, "a generalidade dos clientes utiliza máscara", assegura fonte oficial da empresa. "Os poucos clientes que não cumpriram com essa regra, após serem informados pelas nossas equipas, adquiriram equipamentos nas máquinas de vending instaladas nas estações", acrescentou. Os preços das máscaras disponíveis variam entre 1,5 e 3 euros. Há também luvas a 50 cêntimos e gel a dois euros.

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As taxas de ocupação, essas, continuam baixas, tal como durante o confinamento, período em que a circulação se manteve, embora com um fluxo reduzido de passageiros, mormente o uso de título não ser necessário. Com os veículos limitados a 140 pessoas, dois terços do habitual, desde o início de maio que as validações de títulos, em média, se aproximaram das 50 mil. "Trata-se de cerca de 20% do registo médio de validações em dia útil, que era em janeiro e fevereiro próximo das 260 mil", especificou a mesma fonte da Metro do Porto. De resto, está em marcha o "reforço das operações de limpeza e desinfeção dos veículos, bem como das estações e zonas de acesso, a promoção do distanciamento social e de medidas individuais de higiene e etiqueta respiratória". E há agentes da PSP atentos aos incumpridores, sem que tenham passado qualquer multa.

Na STCP, a rede de autocarros públicos do Porto, a oferta foi reforçada desde 4 de maio. E regressaram procedimentos anteriores, como a permissão da entrada de passageiros pelas portas da frente. "Na segunda feira, a procura rondou os 70 mil passageiros, tendo evoluído na terça e quarta feira para valores na ordem dos 77 mil", precisou fonte da empresa. Para se ter uma ideia melhor da queda note-se que, em fevereiro, "a procura diária rondava os 270 mil passageiros por dia útil".

Em Lisboa, o panorama não é muito diferente, com a rede de transportes públicos a notar subidas de utilização, embora ainda distantes do período que antecedeu o estado de emergência.

O metropolitano, depois de mais de um mês com condicionantes nunca antes verificadas, ainda não vive os dias de antigamente, com quedas brutais na taxa de utilização. Na passada segunda-feira, 4 de maio, data que marcou o regresso à normalidade possível, houve uma redução de 83,4% do número de passageiros em relação ao dia homólogo de 2019, segundo especificou ao JN fonte do Metro. Traduzindo, dos 576 116 passageiros do ano passado, passou-se para apenas 95 769.

A movimentação, além de reduzida, tem sido também pacífica, sem apontamentos de casos graves. "Também a 4 de maio, a PSP registou cerca de 30 abordagens durante o início da hora de ponta da manhã, a passageiros que se apresentaram sem máscara junto aos canais e que foram saneados", apontou a fonte do Metro de Lisboa.

Além de agentes da PSP, estão espalhados pelas estações trabalhadores do Metro que sensibilizam para o cumprimento das regras sociais de proteção individual. E há máquinas onde são vendidas máscaras, luvas e gel.

Ainda em Lisboa, os autocarros também voltaram a testemunhar mais passageiros, no entanto ainda longe de bulícios anteriores. Em termos de procura, os valores foram estáveis durante toda a semana, com cerca de um quarto dos clientes de um dia normal antes da pandemia", garantiu ao JN Urbano fonte da Carris. Tal como no Porto, a validação dos títulos de transporte tornou a ser obrigatória.

Dentro dos veículos é necessário o uso de máscara e a lotação está reduzida a um terço da capacidade, com a Polícia Municipal a controlar de perto. "No período da hora de ponta da manhã e da tarde, os agentes de autoridade estão nas paragens junto aos principais interfaces", explicou a mesma fonte. Além dos autocarros, também os ascensores da Bica e da Glória retomaram a atividade, embora com horários limitado.

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