Passeios de Praga construídos com lápides de túmulos de judeus

Passeios de Praga construídos com lápides de túmulos de judeus

Obras de reconversão da praça Venceslau, principal local histórico de Praga, capital da República Checa, levaram à descoberta de pedras de passeio com nomes e símbolos hebraicos, que parecem confirmar os saques a cemitérios e sinagogas da cidade durante os anos do regime comunista.

Dezenas de paralelepípedos de passeio, com inscrições em hebraico, estrelas de David, e outros símbolos judeus, foram encontrados, nas últimas semanas, por operários que procedem à remodelação da Praça Venceslau, o principal local histórico de Praga.

A descoberta parece vir assim confirmar aquilo que durante várias décadas foi apontado como um boato difundido pela comunidade judaica da cidade, que alegava que, durante uma remodelação do espaço nos anos 80, o regime comunista teria recorrido a pedras retiradas de cemitérios judeus e sinagogas para calcetar as ruas da capital da então Checoslováquia, hoje República Checa.

As suspeitas de que o regime comunista - que dominou a Checoslováquia por 40 anos - havia retirado materiais de cemitérios e sinagogas surgiram quando o diretor do museu judaico de Praga, Leo Pavlat, disse ter encontrado duas pedras da calçada com marcas de lápide. Esta observação levou a que a Câmara Municipal permitisse à comunidade judaica procurar os seus símbolos aquando do início da empreitada que decorre na Praça Venceslau.

"Achamos que é uma vitória para nós, porque até agora isso era apenas um boato. Talvez houvesse pedras judaicas aqui, mas ninguém sabia", comenta, a propósito, o rabino Chaim Kocí, um alto representante da comunidade, citado pelo jornal britânico "The Guardian".

"Estamos a fazer algo certo para o registo histórico. São pedras dos túmulos de pessoas que morreram há mais de 100 anos, em alguns casos, e agora estão aqui, depois de serem utilizadas para este fim. Isto não é bonito", desabafa o representante religioso.

Ao que parece, muitos dos registos de nomes e datas de falecimento não são percetíveis, devido à erosão natural ao longo dos anos, mas, em alguns exemplares já recuperados, foi possível encontrar a referência a um enterro em 1877, quando Praga fazia parte do império dos Habsburgos e noutros inscrições da década de 1970, em pleno regime comunista. As pedras pertenceriam a vários cemitérios da cidade. A intenção da comunidade judaica é agora reunir algumas dos materiais encontrados para construir um memorial em honra dos falecidos.

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