Reportagem

Sem festas populares, os prejuízos vão ser de vários milhões

Sem festas populares, os prejuízos vão ser de vários milhões

O cancelamento das festas populares de junho, devido à pandemia de Covid-19, já está a sentir-se no bolso de muitas famílias e coletividades de Norte a Sul. Só em Vila Nova de Gaia, o presidente da Câmara estima o prejuízo em seis milhões de euros. Por comparação, na capital um autarca prevê que a perda em receitas seja cinco vezes superior.

O cancelamento das festas dos santos populares por causa da Covid-19 confirmou o cenário que já muitos esperavam, mas ainda não queriam aceitar. Um mês de junho menos colorido e muito mais triste para todos. Principalmente para aqueles que trabalham, durante meses, para que as noites de São João (23 de junho) e de Santo António (12 de junho) alegrem a vida de milhares. Os prejuízos ainda não estão calculados por todos os municípios, mas ascenderão a dezenas de milhões de euros.

Só em Vila Nova de Gaia, o presidente da Câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, prevê, comparativamente aos anos anteriores, perdas decorrentes da suspensão do São João e do São Pedro da Afurada "superiores a seis milhões de euros". Relativamente ao Porto, fonte da Câmara avançou ao JN Urbano não ser ainda possível calcular o prejuízo. No entanto, logo no momento da confirmação do cancelamento, a Autarquia da Invicta anunciou que as verbas referentes às iniciativas seriam "alocadas ao esforço do Município nas diversas ações de combate ao cenário de pandemia".

Por sua vez, o presidente da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins, sublinha que "as festas dos Santos recebem milhares de turistas nacionais e estrangeiros, sendo os espanhóis aqueles que mais nos visitam".

Já o presidente da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto, António Fonseca, diz que as repercussões económicas já estão a ser "muito elevadas". "Algumas pessoas que iam usufruir de alguns rendimentos nessa altura já estão a sofrer. Há um sentimento de tristeza e de insegurança por não sabermos quando isto vai parar", lamenta.

Ainda no Porto, Germano Silva, jornalista e um dos maiores conhecedores da história da Invicta, prevê um "grande prejuízo" na cidade. "É prejudicial principalmente para os vendedores. Há pessoas que andaram durante o ano inteiro a cultivar manjericos e alho-porro, que fazem parte da mística do São João, e agora não podem vendê-los", observa. É a primeira vez na história, garante, que a efeméride é "proibida pelas autoridades e interrompida por causa de uma epidemia". "Foi sempre celebrada. Na Guerra da Patuleia, andavam aos tiros na cidade e durante o Cerco do Porto houve uma peste e a festa fez-se na mesma. A referência mais antiga ao São João é feita numa crónica de Fernão Lopes, do século XIV", conta Germano Silva, que, pela primeira vez em 89 anos de vida, não vai a uma das festas mais célebres da cidade.

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Em Lisboa, nos bairros que são o palco da festa, os prejuízos deverão ser ainda maiores. Na freguesia de Santo António, onde decorrem as marchas, o presidente da Junta, Vasco Morgado, já faz contas. "Se Gaia tem seis milhões, Lisboa provavelmente terá prejuízos de 30 milhões de euros", estima. No mês de junho, lembra, muitas famílias conseguiam retirar rendimento para alguns meses ou despesas anuais. "Há uma senhora na Bica que usa o que ganha nesse mês - 2400 euros - a vender cervejas, bifanas e manjericos, para pagar as rendas da casa durante um ano", exemplifica.

Em Alfama, o centro das festividades populares, estes eventos também são responsáveis pela sustentabilidade financeira de muitas famílias, "sendo expectáveis repercussões sociais", antecipa o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho. O autarca acredita que o cancelamento das efemérides prejudique "mais de 30 famílias de vários bairros".

Em junho, há muita gente que ruma à capital só para ver as marchas de Lisboa que, pela primeira vez, em mais de 30 anos, não vão desfilar na avenida. Os ensaios já tinham sido suspensos pela Câmara de Lisboa bem antes do anúncio oficial do cancelamento das marchas, mas os encargos já começaram há muito mais tempo.

"Logo no início de março, antevendo o que aí vinha, parei os ensaios, antes do pedido da Câmara. Nessa altura, já andávamos a escolher tecidos e, na hora da encomenda, começou a falar-se da Covid-19. Se fosse uns dias depois, e tivéssemos avançado para a compra, teria de pagar e o prejuízo seria de 10 mil euros", explica João Ramos, coordenador da marcha de Alfama há 20 anos.

A Câmara de Lisboa apoia as coletividades organizadoras das marchas, distribuindo 30 mil euros por cada uma das 20 que participam. O subsídio este ano não será entregue, mas a Autarquia vai compensar os clubes em 7500 euros. No caso de Alfama, dará para cobrir as despesas. Já a marcha do Bairro Alto está em pior situação. "Há muitas pessoas às quais ainda não pagamos, que precisam do dinheiro para sobreviver e temos de honrar estes compromissos", diz Vítor Silva, organizador da marcha.

Pedro Jesus, responsável pela marcha do Alto do Pina, vencedora da última edição, acredita que o trabalho "não será perdido", uma vez que o tema da marcha transita para o próximo ano, mas já há gastos. "Tínhamos contratado letristas, compositores, ensaiador, músicos, costureira, protótipos de figurinos e cenografia e encomendado tecidos, e isto tem de ser pago", revela. As marchas, lembra, custam às coletividades "muito mais de 30 mil euros", havendo sempre despesas extra.

O setor cervejeiro, presença obrigatória nas festas, terá prejuízos brutais. Embora ainda não consiga avançar dados concretos, o secretário-geral dos Cervejeiros de Portugal lembra que a paragem total dos hotéis, restaurantes e cafés representa "75% das vendas do setor cervejeiro nacional". "No caso do subsetor artesanal representa mais de 95%, o que põe em causa a sobrevivência do mesmo", revela.

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