Covid-19

Estudante de Paços de Ferreira relata dias de incerteza e pânico em Bordéus

Estudante de Paços de Ferreira relata dias de incerteza e pânico em Bordéus

Uma estudante de Erasmus, de Paços de Ferreira, relata dias de incerteza e pânico vividos em Bordéus, França.

Integrada num grupo de estudantes de vários pontos do país que tinham voo de regresso para o Porto, que foi desmarcado, Albertina da Conceição e os colegas viram-se sem sítio onde dormir e foram "salvos" pela ajuda de uma pessoa amiga, que lhes deu abrigo e alimentação até conseguirem novo voo. Está desde quarta-feira à tarde em casa, em quarentena.

Quando regressaram às aulas na Universidade de Sciences Po Bordeaux, provenientes de cursos integrados da Universidade de Coimbra, os jovens não podiam antecipar a situação que iam viver.

Depois de estarem em Portugal de férias, e apesar de já estarem identificados casos de COVID-19 no país, a universidade deu indicação de que as aulas iriam manter-se. Albertina e os colegas viajaram para Bordéus, no dia 7 de março. "Lá não era uma área muito afetada, mas tínhamos colegas que vieram de todos os pontos de França", conta.

Ainda assim, mantiveram uma vida mais ou menos normal até que, na quinta-feira passada, as atividades escolares foram suspensas no país. Foram às compras e preparam-se para uma possível quarentena e para ficarem resguardados evitando sair à rua, mas, perante a certeza de que o ano letivo - com final agendado para abril - estava terminado devido ao novo coronavírus, os alunos decidiram agendar viagem de regresso a Portugal.

"No domingo as pessoas ainda não estavam a levar aquilo muito a sério. Ainda tínhamos colegas a sair à noite. Mas no domingo os transportes pararam. E na segunda-feira mudou muita coisa", explica Albertina, referindo que em França só podiam sair de casa com uma autorização (assinada pelo próprio), indicando o motivo da saída, se era por questões de saúde, para ir buscar alimentação ou fazer exercício físico, sempre sozinhos.

Face a um cenário complexo, conseguiram agendar a viagem de volta para terça-feira passada. "Vivemos em residências, alguns em quartos com cozinha e casa de banho com nove metros quadrados e não ia ser fácil fazer quarentena nessa situação. Começamos a preparar-nos para vir embora. Vendemos coisas como fornos e microondas e noutros casos enviamos para cá roupas de cama e outros móveis, coisas que não podíamos trazer no avião. E demos a comida que tínhamos comprado", relata a jovem de 20 anos de Paços de Ferreira, que está no segundo ano do curso de Relações Internacionais.

PUB

Só que na passada segunda-feira à noite, Albertina e os seis colegas, de Lousada, Aveiro e Coimbra, tiveram a notícia de que o voo tinha sido cancelado.

Ligaram à emergência consular, que indicou que deviam comprar um voo da TAP para o dia seguinte, mas mesmo desse houve suspeita de cancelamento. "Ficamos em pânico", confessa a pacense.

Sem saberem o que fazer e sem sítio onde ficar, os jovens começaram a contactar várias entidades, como o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os coordenadores do curso, em Coimbra e em Bordéus, o consulado e recorreram também às câmaras municipais de onde eram naturais. Chegaram a ponderar a hipótese de virem até Espanha, mas não sabiam se iam ser autorizados a passar, pois já se falava do encerramento de fronteiras. Do município de Paços de Ferreira, conta, houve resposta e contacto junto do Consulado Geral de Portugal, pedindo apoio com urgência para a permanência do grupo em França ou ajuda no regresso a Portugal, diz Albertina da Conceição.

"Foram dias de muito stress e de incerteza e em que nós equacionamos mil cenários hipotéticos de como regressar. A televisão francesa a dizer que iam ser dadas 24 horas a quem quisesse voltar ao país de origem. Parecia sempre que estavam a surgir mais impedimentos ao nosso regresso", admite.

A mãe de Albertina da Conceição conseguiu então contactar uma empresária de Paços de Ferreira conhecida que foi em auxílio dos sete jovens. "Veio buscar-nos à residência e levou-nos para casa dela. Não cobrou nada, deu-nos um sítio onde ficar e foi incansável quando não nos conhecia de lado nenhum. Depois trouxe-nos ontem ao aeroporto", refere a jovem, agradecida pelo gesto solidário.

Chegaram a Lisboa ontem à tarde e daí apanharam novo voo para o Porto. Notou que tudo funcionava com uma normalidade estranha. "Em Bordéus só havia dois a três voos de cada vez e estava tudo fechado. Éramos mandados para pontas distintas do aeroporto, sempre com indicações para guardarmos um metro de distância. E dentro do avião havia sempre um lugar livre entre cada um. O aeroporto de Lisboa estava a funcionar normalmente e tinha as áreas de restauração abertas", resume, assumindo ainda que em França viam-se muitas pessoas de máscara a tentar proteger-se.

Albertina está agora de regresso a Paços de Ferreira, concelho onde há, para já, segundo a autarquia, apenas dois casos positivos confirmados.

"Estou em casa, de quarentena, até porque os meus avós são população de risco e vivem no andar inferior. Com as viagens já estive em vários aeroportos e é melhor prevenir. Não tenho sintomas, mas não sei se tenho o vírus", salienta. "Estou mais tranquila cá. Pelo menos se ficar doente tenho o apoio da família", conclui.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG