Investigação

Estudo comprova correlação positiva entre desemprego e depressão

Estudo comprova correlação positiva entre desemprego e depressão

Investigadores analisaram evolução da taxa de incidência da doença nos períodos antes, durante e após crise, provando interdependência.

​​​À perceção, junta-se agora a comprovação científica. A taxa de incidência de depressão correlaciona-se positivamente com a taxa de desemprego. Quando uma sobe, a outra segue igual tendência. Isso mesmo veio demonstrar um estudo da Rede de Médicos Sentinela, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA).

Depois de numa investigação anterior, que se debruçou sobre o impacto da crise de 2007/13, aquela equipa ter observado "uma correlação positiva entre a taxa de desemprego e a taxa de incidência de depressão no sexo masculino", os investigadores foram agora perceber a sua dimensão na época pós-crise. Confirmando para o período de 2016/18 que a recuperação económica foi também acompanhada por um decréscimo nos casos de depressão em ambos os sexos, aproximando-se das taxas registadas na pré-crise.

Corroborando, assim, a "correlação positiva entre desemprego e depressão na população portuguesa, observada anteriormente em 2007-2013". Anos da "troika" no nosso país, em que a taxa de desemprego atingiu os 16,3%, em 2013, e o Produto Interno Bruto caiu 7%. Tendo também, em 2013, a taxa de incidência de depressão registado o seu valor mais elevado, "observando-se um decréscimo consistente, em ambos os sexos, a partir desse ano". Sendo a incidência nas mulheres sempre mais elevada.

Causa-efeito? Não

Podemos, então, concluir por uma causa-efeito? A resposta é não. Porque, explica ao JN Ana Paula Rodrigues, uma das autoras, o estudo teve em conta os casos de depressão notificados pelos médicos que integram aquela rede do INSA, discriminados por sexo e faixa etária. Ou seja, não se sabe se os utentes estavam no desemprego ou não.

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Para o período de 1995 a 2018 foi apurado, então, um coeficiente de 0,833 para os homens e de 0,742 para as mulheres. Este indicador, que oscila entre 0 e 1, explica a coordenadora da Rede, "mede a força da correlação entre as duas variáveis [desemprego e depressão], sendo que quanto maior, maior a correlação". Segundo Ana Paula Rodrigues, "valores acima de 0,80 mostram uma correlação elevada".

Resultados que, frisam os investigadores nas suas conclusões, indicam a "necessidade de manter sob monitorização a ocorrência da doença mental na população, em especial em momentos de maior vulnerabilidade social". Objetivo? Adoção de medidas preventivas "como forma de mitigar o impacto de futuras crises económicas". Como a que se faz já sentir.

À LUPA
O que é a Rede?

A Rede de Médicos Sentinela, coordenada pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), é um sistema de observação em saúde constituído por médicos de Medicina Geral e Familiar. Conta, atualmente, com cerca de 120 clínicos.

Método do estudo

Utilizaram-se os dados da Rede relativos a primeiros episódios e recidivas depressivas e os dados do Instituto Nacional de Estatística relativos à taxa de desemprego. Os resultados foram desagregados por sexo. Nos anos em estudo, a população da Rede variou entre um mínimo de 28.184 utentes (2013) e um máximo de 164 676 (1995).

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