Covid-19

Evolução do contágio não descansa peritos

Evolução do contágio não descansa peritos

Epidemiologistas que vão aconselhar políticos antes da segunda fase de reabertura põem a tónica na vigilância.

A evolução da covid-19 não descansa os peritos que, esta quinta-feira, voltam a aconselhar os decisores políticos numa sessão no Infarmed. A poucos dias de nova reabertura, com o regresso de 160 mil alunos à escola e da reabertura dos cafés e restaurantes na segunda-feira, os números da infeção estão em linha com o esperado, mas não são tranquilizantes. Nos últimos dias, a taxa de transmissão diária (Rt) ronda o 1: uma pessoa infetada transmite a doença a outra pessoa.

Agora, o "grande desafio", como lhe chama Carla Nunes, diretora da Escola de Saúde Pública, é montar um sistema de vigilância que dispare um alerta se houver risco de descontrolo. "Está a ser montado e tem que ser testado, não se faz de um dia para o outro", disse. Já há indicadores definidos, "mas ainda não há valores de corte", a partir dos quais se recomende travar a reabertura.

Entre os indicadores está o número de internamentos, em enfermaria e em cuidados intensivos. "Podemos tomar como referência o pico de 16 de março", quando houve 1302 internamentos, 20% dos quais em cuidados intensivos, disse Manuel Carmo Gomes, professor na Faculdade de Ciências de Lisboa. "Seria mau se o ultrapassássemos".

Um segundo indicador é o perfil dos novos casos, já que a idade e o género têm impacto direto na capacidade de resposta do sistema de saúde. "Os homens e os idosos ficam internados durante mais tempo", sobrecarregando o sistema, explicou.

O sistema de vigilância integra também o número de consultas nos centros de saúde por doenças respiratórias ou pneumonias. São problemas de saúde pouco frequentes, em maio, e podem indiciar uma maior propagação do vírus.

Quanto ao número de novos casos, os epidemiologistas fazem um "nowcasting": uma previsão do número real de novas infeções por dia, já que os dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde podem ter um atraso de um ou dois dias, explicou Carmo Gomes.

"É caminhar no arame"

As novas infeções permitem calcular quantas pessoas foram contagiadas por cada doente com infeção ativa. Todos os dias, o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge calcula o Rt, a taxa de transmissão do vírus, no curto espaço de tempo. Nos últimos dias, diz Carmo Gomes, tem subido e descido. "Às vezes está em 0,95, outras em 1,1". É "mau sinal" se se mantiver acima de 1 durante "uma ou duas semanas", avisa.

Para já, Carla Nunes constata que "tudo se mantém no bom caminho, mas os valores não são tão baixos quanto isso", alerta, pedindo "pequenos passos na reabertura" do país. Carmo Gomes segue a mesma linha: "a situação está controlada, mas é como caminhar no arame: podemos desequilibrar-nos a qualquer momento".

Os epidemiologistas têm acompanhado de perto indicadores que lhes permitem estimar a evolução da pandemia. Entre eles estão três "R".

R0, reprodução básica

É o ponto zero, em que a população nunca teve contacto com um vírus ou bactéria, pelo que não tem qualquer tipo de imunidade. Nesta fase, é relevante calcular o R0 (zero), ou seja, o "número médio de casos de infeção originados a partir de um caso primário", que ainda está "no seu período infecioso", lê-se no Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo coronavírus. Ou seja, quantas pessoas é expectável que cada doente venha a infetar.

Re, reprodução efetiva

A partir do momento em que (neste caso) o vírus já está a circular, a população começa a ganhar alguma imunidade à doença. É nesta circunstância que o Re (o número efetivo de reprodução) se torna relevante: mede também o número de infeções que um doente causará, mas sabendo já que parte da população está imunizada.

Rt, reprodução diária

As novas infeções diárias estão a ser analisadas à lupa e os epidemiologistas estimam quantas pessoas foram infetadas por um único doente, num espaço de tempo curto. O Instituto Doutor Ricardo Jorge está a calcular a taxa numa base diária. Este é, agora, o indicador seguido mais de perto.

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