Manifestação

Ex-combatentes protestam contra atrasos no Estatuto

Ex-combatentes protestam contra atrasos no Estatuto

Várias dezenas de ex-combatentes manifestaram-se esta quinta-feira em frente à Assembleia da República contra os atrasos no cumprimento dos direitos previstos a quem possui o cartão do antigo combatente. Os transportes públicos gratuitos e o livre acesso aos museus e monumentos nacionais são alguns dos direitos que estão por cumprir, denunciaram.

"Precisamos urgentemente que nos revejam o estatuto", disse João António Magalhães, ex-oficial do Exército, que combateu dois anos em Guiné-Bissau. Apesar dos vários momentos de diálogo que têm tido com o Governo e da existência de uma secretaria de Estado dos Antigos Combatentes, queixam-se que os direitos previsto no estatuto dos antigos combatentes não estão a ser cumpridos.

"Ainda hoje dirigi-me à estação da REFER, mostrei o cartão de antigo combatente e disseram-me que não valia de nada", lamentou Francisco Godinho, ex-combatente na Guiné-Bissau entre 1970 e 1972,. comentando que teve de pagar o bilhete de comboio desde a margem Sul até Lisboa.

Além da manifestação, os organizadores do protesto disseram ter intenção de entregar na Assembleia da República um "dossier dos combatentes do Ultramar (1961/1975)" onde constam 14 pontos que definiram como "um caderno de direitos". Entre estes pontos está a "recolha imediata de todos os combatentes sem-abrigo e colocação em locais com dignidade, conforto e carinho, com toda a assistência de saúde geral", o "internamento imediato para todos os que necessitarem, em hospitais, lares públicos ou privados e militares, para todos os combatentes, suas viúvas e suas esposas" ou o direito à gratuitidade de todos os medicamentos ou tratamentos e exames que necessitem, extensivos também a viúvas e esposas.

Os atrasos no cumprimento dos benefícios do cartão do antigo combatente são a principal causa da revolta dos manifestantes. Fernando Loureiro, presidente do Partido Unido dos Reformados e Pensionistas (PURP), presente na manifestação, diz que há uma "discriminação" pois alega que só os combatentes da zona metropolitana de Lisboa e do Porto é que têm direito a circular gratuitamente nos transportes públicos.

José Figueiredo, antigo combatente em Angola, que se dirigiu de Viseu a Lisboa juntamente com a mulher, Arminda Carvalho, afirma que a maioria dos direitos dados pelo cartão já estavam previstos para os reformados, como é o caso da isenção das taxas moderadoras. "Há no Parlamento de certeza filhos de combatentes do Ultramar que têm noção daquilo que os pais sofreram e da dificuldade que tivemos de os levar até ali. Mas estamos a ser esquecidos", prosseguiu.

"Fomos obrigados a ir para a guerra. Os que estão agora no Exército são voluntários", disse José Figueiredo, defendendo que os antigos combatentes devem ter mais apoios do que os atuais voluntários que vão para missões de paz.

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"Respeito e dignidade" é o que pede o ex-combatente em Angola, Manuel Tavares de 71 anos. "Roubaram-nos aquilo de melhor que nós tínhamos que era a nossa juventude. Há 50 anos que andamos a pedir" melhores condições, diz.

Os ex-combatentes queixam-se também que as suas funções no Ultramar são mal interpretadas. Até "nas escolas nós somos fascistas, nas escolas nós somos assassinos (...). Não pegaram na juventude e não lhes explicaram como é que isto aconteceu, quem é que nos empurrou para uma guerra destas. E ainda para cúmulo tenho uma neta que me vem dizer indiretamente que eu fui assassino?", relatou um dos manifestantes, visivelmente emocionado.

Germano Miranda, um dos responsáveis pelo protesto, refere que houve cerca de 300 mil ex-combatentes e que hoje são 100 mil. "Estão à espera que cada um de nós deixe de existir", corrobora Francisco Godinho.

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