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Explosão mata na Rua do Carrião

Explosão mata na Rua do Carrião

Não há qualquer referência a esse episódio da história da conspiração republicana na fachada do prédio - agora um moderno edifício de apartamentos -, mas este número 3 da Rua do Carrião, em Lisboa, foi poiso de conspiradores e palco de uma tragédia, corria o ano de 1907.

Num dos quartos viva o jovem jornalista Aquilino Ribeiro, chegado à capital apenas um ano antes, mas já totalmente envolvido nos trabalhos da Carbonária Portuguesa.

Certo dia, caminhava Aquilino pelo Rossio quando foi abordado pelo fundador da Carbonária, Luz de Almeida, que lhe pede para guardar dois caixotes com material explosivo. Caixotes que até então tinham estado escondidos no consultório do médico Gonçalves Lopes, cujos passos eram seguidos pela polícia secreta monárquica. Aquilino acede.

Na tarde de 16 de Novembro, um domingo, Aquilino, Gonçalves Lopes e Belmonte de Lemos, comerciante na Rua dos Fanqueiros, dedicavam-se ao fabrico dos engenhos explosivos. Utilizavam pinhas de ferro, como as que eram usadas para enfeitar as sacadas das casas, pólvora negra e carda miúda de sapateiro, quando se dá uma explosão.

Segundo os jornais da época, o médico ter-se-á descuidado e martelado com força a bomba carregada. Gonçalves Lopes e Belmonte de Lemos morrem logo ali; Aquilino sai praticamente ileso, tendo como preocupação imediata deixar o local para não ser implicado nas manobras conspiratórias. Foge pelo meio da multidão que, ao ouvir o estrondo, acorrera à rua, mas é rapidamente detido pela polícia.

Nessa época, já conscientes das movimentações das forças inimigas, os monárquicos fizeram aprovar um decreto que previa a deportação perpétua para as colónias de quem fosse pronunciado por qualquer delito político ou crime de Imprensa.

Levado ao temido juiz da Veiga, juiz de instrução criminal, é encarcerado na esquadra do Caminho Novo, de onde consegue evadir-se na madrugada chuvosa de 12 de Janeiro de 1908. Esconde-se numas águas-furtadas de um edifício pombalino, a 150 metros da Parreirinha, "pelas escadinhas de S. Francisco, e a menos de 200 metros do Ministério do Reino, podendo ouvir, se não houvesse a interferância acústica, os espirros do sr. João Franco", conta em "Um escritor confessa-se". Parte, pouco depois, para Paris.