Estado de calamidade

Famílias gerem afetos e medos no trapézio do reencontro

Famílias gerem afetos e medos no trapézio do reencontro

Fim do estado de emergência obriga a repensar reencontro familiar. Associação quer visitas de volta aos lares.

Abraços, beijos, dar as mãos, tocar. Todos sentem que é urgente voltar ao contacto físico, presencial, olhos nos olhos, sem ecrãs pelo meio, mas as famílias sentem-se indecisas, inseguras a percorrer o caminho do reencontro. "O fim do estado de emergência não significa o regresso à normalidade. Devemos ser prudentes e evitar que uma reaproximação demasiado rápida contribua para descontrolar a situação epidemiológica", adverte o psiquiatra Pedro Morgado.

"O isolamento social tem consequências importantes do ponto de vista social e da saúde, mas é importante realçar que nem o estado de emergência nem o "estado de prudência" que se segue significam isolamento - o que se pede é distanciamento físico. Avós e netos podem (e devem) manter o contacto através dos meios de comunicação ao seu dispor", acrescenta o médico do Hospital de Braga.

Se as conversas online passaram a ser uma rotina diária de inúmeras famílias, as visitas aos que estão institucionalizados mantêm-se canceladas. E, nesses casos, a tecnologia parece já não bastar. "Começa a ser muito penalizante", considera o presidente da Associação Amigos da Grande Idade, Rui Fontes. "Começam a aparecer sinais de tristeza, depressão, agitação e conflitualidade e até de agressividade. Grande parte das pessoas não percebe porque é que os filhos deixaram de as visitar. E não tem condições mentais para perceber as explicações".

Famílias "trapezistas"

"Não pode manter-se a proibição. As visitas de familiares serão tão cuidadosas, pelo menos, como os trabalhadores que diariamente entram e saem do lar, mais que os fornecedores. Não podemos discriminar mais as pessoas idosas, especialmente as institucionalizadas", diz Rui Fontes.

Rita Mendes Correia, presidente da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas, afirma que há agregados que mantêm o contacto através da janela e "mimos" à porta de casa. Aliás, completa, nos lares das famílias numerosas, a falta dos avós sente-se num outro nível, já que eles "são muitas vezes um apoio diário essencial".

As famílias "trapezistas" procuram encontrar o ponto de equilíbrio entre proteger e partilhar afeto, num tempo em que é difícil perceber a dimensão da rede de segurança. "A prudência e responsabilidade com que enfrentamos esta pandemia não pode fazer com que paralisemos pelo medo. As crianças precisam de crescer num ambiente em que o medo é balanceado com a confiança e a sensação de segurança; os adultos precisam de adaptar as suas vidas de forma a que o medo não os bloqueie; os mais idosos precisam também de recuperar algumas atividades para poderem viver bem. Desejo que não fiquemos tão obcecados com o vírus que acabemos por nos esquecer de viver", reflete o psiquiatra Pedro Morgado.

Quatro netos muito ansiosos por voltar a abraçar os avós

Na casa de Alexandra e Pedro há quatro crianças. A mais velha tem 12, a mais nova dois. Todos estão a viver longe dos avós, há demasiado tempo.

Há dois meses que a família de Santo Tirso está em confinamento. "Os meus pais vieram cá no dia 26 de março para cantar os parabéns à mais nova, a Benedita, e trouxeram a minha avó com quem fui criada, que tem 85 anos. Ficaram ao longe no portão", conta Alexandra Vale Cruz.

Está em regime de teletrabalho e sempre que o telefone toca os filhos correm a perguntar-lhe se são os avós, os tios, os primos. Às vezes não são. "Ficam muito ansiosos. Os mais novos não compreendem este desligar tão repentino. O Vicente, que tem nove anos, perguntou-me se ia almoçar a casa dos meus pais no Dia da Mãe. Ouviu nas notícias que ia acabar o estado de emergência e pensou que poderíamos ir".

Formada em Geologia e a trabalhar como técnica de educação ambiental, diz-se uma mulher dividida quando pensa no reatar dos contactos presenciais. "Sou das ciências, mas enquanto família também devemos viver com o nosso coração tranquilo, cada um da forma que considerar melhor. Eu acho que vou tentar agir com espontaneidade. É urgente as famílias voltarem a estar juntas. Vamos ter de agir por nossa conta e risco, sem exageros e de forma ponderada ".

Aos 39 anos, Alexandra Vale Cruz recorda as memórias felizes das férias grandes de verão junto dos avós, registos que os filhos podem não ter este ano. "O meu medo é que os meninos se habituem e depois achem que isto é o normal, porque vai marcá-los, está a marcar-nos a todos. Fico preocupada com o pensamento deles".

O contacto por agora é praticamente todo à distância, por videochamadas. "É horrível este quebrar de relações de pessoas. Nós gostamos de abraçar, tocar e voltar à normalidade vai ser complicado. Temos medo pelos mais velhos e pelos mais pequenos".

Os poucos contactos presenciais entre avós e netos deram-se à distância. "A mais pequenina fica com uma cara triste, corre e eles têm de fugir dela. Às vezes é tão estranho que prefiro nem os ir ver. Vou gerindo os reencontros um bocadinho com o coração".

Abraços criativos para matar as saudades

A casa de Diana e de Pedro é onde toda a família se junta para comemorar aniversários e festas como o Natal. É também a casa das jantaradas de amigos, sempre cheia. Uma vida social a que Ana Sofia, de oito anos, se habituou. Por estes dias, tudo está suspenso.

Os contactos resumem-se a videochamadas e as festas e os brindes passaram a ser feitos com cada um em sua casa, por videoconferência.

"Temos todos muitas saudades de estarmos juntos, dos fins de semana em grupo. Foi um grande choque", conta Diana, de 41 anos.

Quando viu o telemóvel bombardeado com mensagens e grupos de conversa das amigas da filha, que está há dois meses longe da escola, comprou-lhe um telemóvel. "Acabou por ser necessário para ela manter o contacto e a normalidade. Todos os dias fala com os avós". Também eles se adaptaram. "A minha sogra não escrevia mensagens, agora é exímia". É precisamente com os avós que o afastamento tem sido pior. "A Sofia é muito de toque, abraços e beijos, mas isto no fundo são atos de amor e ela compreende-o bem porque desde o início lhe explicamos o perigo".

Diana tem ainda uma avó de 101 anos e foi na criatividade que arranjou a forma de lhe demonstrar amor. "Sabíamos que para a proteger tínhamos de nos isolar e ela tem uma paixão louca pela bisneta. Ouvia-a sempre dizer que tinha muitas saudades. Abracei-a nas pernas, para ficar longe do rosto. Necessitamos de contacto, de partilha de ideias, porque pelo telefone só se aguenta algum tempo, depois não se consegue mais".

Também já abraçou a mãe pelas costas, com a felicidade de a ver ao perto e "a tristeza de não lhe poder dar um beijo". "A minha filha está ansiosa por voltar a estar à vontade com os avós e os amigos".

Quando Diana e o marido voltarem ao trabalho, a filha vai para casa dos avós, porque o colégio ainda não abriu. "Talvez tenhamos que redobrar cuidados. Vamos alargar o círculo de contacto de forma gradual, primeiro os avós, depois os amigos mais chegados, o mesmo modelo de desconfinamento indicado pelas autoridades".

Agora, que os beijos e os abraços têm ainda mais valor, os poucos mimos que troca sabem-lhe "a ouro".

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