Portugal Diagonal

Fascínios da serra

Todos os dias, o secretário de Estado do Planeamento, José Mendes, escreve sobre a viagem de bicicleta de Bragança a Sagres. Etapa Góis-Sertã.

A maior parte dos portugueses sabe o respeito que o mar impõe. A serra, poucos a temem. Quiçá porque a escola nos impõe "Os Lusíadas" - ainda bem - e nos dá a conhecer o Gigante Adamastor. Não contesto, mas tenho novidades. O mar não está só.

Nesta quinta etapa, saí de Góis com a segurança de nunca me enganar. O caminho era óbvio. Para cima. Sabedora da minha chegada, a serra tratou de apresentar as suas credenciais. Um manto de nevoeiro foi-se adensando, até parecer sólido. Num ápice, sem aviso, a massa cinzenta e húmida abocanha o monte e, na mesma dentada, engole-me a mim e à minha fiel bicicleta. Quase deixei de ver. Os carros, escassos, apontam-me as luzes de nevoeiro. Frio. Tateio o caminho, receoso.

Numa curva à esquerda, abano com um golpe de ar. Anunciava o vendaval. Ciclismo e vento não casam. Há que baixar a velocidade, inclinar o corpo e imprimir firmeza na pega do guiador. Pelo canto do olho, avisto a placa "parque eólico". Fiquei melhor, haveria algo a rodar de felicidade com o furacão.

Se a serra tinha mostrado que pede meças ao mar, também o sol apresentou serviço. Insistiu tanto que finalmente furou a neblina. Primeiro com apenas uns raios, depois à bruta, fazendo saltar o mercúrio dos termómetros. A sua luz deu vida ao império do eucalipto. E do pinheiro. A caminho da Sertã e passando em Pedrógão, só posso pensar nos fogos. Nem sinal deles. Mas sei que andam poucos montes adiante, porque oiço os aviões no ar. Ajusto os olhos às encostas e reconheço que a floresta parece mais ordenada e que as margens ao longo das estradas estão bem mais desimpedidas do que no passado. Ajuda no combate, quando o fósforo lança a tragédia.

Redireciono o meu sentir para a estrada. A forma matreira como vai lá abaixo atravessar o coroamento da barragem do Cabril e depois trepa a escarpa, riscando-a com autoridade, deve fazer corar de inveja o viaduto do IC8 que, lá longe, sonhou um dia ser alternativa à N2. Esqueceu-se de que esta chegou mais cedo, há 75 anos, e logo se instalou na melhor parte do território.

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