Covid-19

Fernando Maltez: "A eficácia de uma cerca só é real se for cumprida rigorosamente"

Fernando Maltez: "A eficácia de uma cerca só é real se for cumprida rigorosamente"

Fernando Maltez, diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, explica ao JN como as cercas sanitárias são importantes quando há uma transmissão significativa na comunidade.

Ideias a reter no dia em que a cerca à cidade de Ovar foi prolongada e em que foi implementado um cordão sanitário à volta de todos os concelhos da ilha de S. Miguel, no Açores.

Em que circunstância se justifica uma cerca sanitária?

Quando se verifica que, numa região, existe um número anormalmente elevado de casos e uma transmissão na comunidade também demasiadamente elevada, comparativamente com o que se passa em áreas adjacentes. É uma medida de contenção importante e que se deve implementar quando há uma transmissão significativa na comunidade.

Portanto, um elevado número de casos justifica uma cerca?

Justifica, com certeza. Se temos um número muito elevado de casos e uma transmissão elevada numa determinada região, comparativamente com o que se passa no resto do país, é de todo o interesse fazer uma cerca comunitária e delimitar a região onde existe esse número elevado, de modo a evitar que alastre para o resto das regiões. Isto transposto para maiores proporções, seria o mesmo que o país ter um número muito elevado de casos, com uma transmissão muito marcada comparativamente com os países circundantes, em que se imporia o encerramento de fronteiras.

O que representa esta medida na vida de uma comunidade?

Vai ter, seguramente, implicações sociais e económicas, porque as pessoas que trabalham fora da cerca ficam impedidas de sair, e o contrário também é verdade. Isto tem custos. Não é fácil de implementar e tem consequências, claro.

De que forma uma cerca sanitária é eficaz?

A eficácia de uma cerca comunitária só é real se for cumprida rigorosamente. Se essa cerca não é completamente estanque e deixar passar indivíduos de um lado para o outro, corre-se o risco de infetar pessoas fora dessa cerca. Por outro lado, se deixamos passar para o lado de dentro, estamos a dar a possibilidade de deixar entrar pessoas infetadas. A cerca comunitária deve ser estanque, e não deve desleixar-se nem desleixar de uma forma complementar todas as outras medidas de contenção social que se impõem.

A cerca de Ovar está a ser eficaz?

Só se poderá avaliar a sua eficácia dentro de mais algum tempo, com o evoluir da situação epidemiológica. Mas penso que, em princípio, será eficaz, se de facto estiverem a cumprir aqueles pressupostos. Se se faz uma cerca, seja em que lugar for, é para evitar que as pessoas saiam e transmitam a infeção noutras regiões. Se eventualmente se deixa passar a exceção, como o indivíduo A porque trabalha fora do concelho e não pode faltar ou o fulano B que trabalha no Porto mas precisa de ir ali tratar de um assunto urgente, e se, dentro da cerca, não forem cumpridas as medidas de isolamento social e as regras de higienização e de etiqueta respiratória, a cerca não vale de nada. A cerca é eficaz se for cumprida rigorosamente. Tem de ser muito rigorosa no controlo da passagem e, dentro, tem de ser acompanhada de todas as medidas possíveis que evitem mais transmissões.