1932-2021

Feytor Pinto, à frente do seu tempo com "paixão pela Igreja"

Feytor Pinto, à frente do seu tempo com "paixão pela Igreja"

Traquina, como o pai o descreveu ao reitor do Seminário do Fundão, quando apenas tinha 10 anos, Vítor Feytor Pinto viria a transformar-se, ao longo da vida como padre, numa figura "presente" e "à frente do seu tempo", que marcou gerações.

Com vocação precoce - aos 5 anos já avisava a família de que queria ir para o seminário -, Feytor~Pinto teve a sua vida sacerdotal marcada pela "paixão pela Igreja", como confessou em 2015, aquando dos 60 anos da sua ordenação, ao jornal Voz da Verdade, do Patriarcado de Lisboa.

"Guardo um profundo sentido de fidelidade", disse, então Vitor Francisco Xavier Feytor-Pinto, que nasceu em 06 de março de 1932, na freguesia de Santo António dos Olivais, em Coimbra, no seio de uma família com um pai de fé "fortíssima" e uma mãe de fé "pequenina".

Mudando-se criança com a família para Castelo Branco, Feytor Pinto entrou no seminário do Fundão aos 10 anos, dando corpo a uma vocação que bebeu muito nos exemplos de um tio padre e do próprio pai, que "durante 73 anos foi vicentino e todos os sábados ia visitar os pobres".

Após os estudos no Fundão, deu-se a transferência para o Seminário da Guarda, onde, além de prosseguir os estudos, deu nas vistas como guarda-redes, chegando mesmo a levar o clube de futebol da cidade a pedir ao reitor do seminário para que pudesse defender as suas redes.

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"Eu era, de facto, o melhor guarda-redes da zona", não hesitou em dizer ao Voz da Verdade.

Ordenado às 07:00 de 10 de julho de 1955, Vítor Feytor Pinto, usando uma alva feita pela mãe, começava aí um percurso que o levaria a deixar a marca por onde passou até à paróquia do Campo Grande, no Patriarcado de Lisboa.

Coordenou, durante vários anos, a Pastoral da Saúde em Portugal, foi Assistente Nacional e Diocesano da Associação Católica de Enfermeiros e Profissionais de Saúde (ACEPS), Assistente Diocesano dos Médicos Católicos e Assistente Diocesano da Associação Mundial da Federação dos Médicos Católicos (AMCP), além de ter sido fundador do Movimento de Defesa da Vida, em Lisboa.

Mestre em Bioética e licenciado em Teologia Sistemática, foi admitido em novembro de 2005 pelo Papa Bento XVI entre os membros da Família Pontifícia, nomeando-o seu capelão, com o título de Monsenhor.

"A Vida é sempre um valor", "100 entradas para um mundo melhor" e "A palavra vivida" foram alguns dos livros escritos pelo Padre Vitor Feytor Pinto, que integrou, também, o Conselho Pontifício para os Profissionais da Saúde e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

Passou também pela presidência do Entreculturas esteve à frente do Alto Comissariado do Projeto Vida, de luta contra a droga.

Mas, o sonho cumpriu-se quando tomou posse da paróquia do Campo Grande em outubro de 1997.

"Foi a primeira vez que fui pároco e foi o sonho da minha vida! Animar uma comunidade, provocar a vida de uma comunidade", chegou a confessar.

Vítor Feytor Pinto foi ainda porta-voz, junto dos bispos portugueses, da revolução de 25 de abril de 1974, recordando sempre a forma "serena", mas "interventiva" como a Igreja Católica viveu a queda do regime.

Para o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Feytor Pinto foi "uma das figuras mais importantes da Igreja Católica Portuguesa nos últimos 50 anos", que "não precisou sequer de pertencer à hierarquia para ter influência decisiva em momentos essenciais da afirmação da mensagem cristã".

Já para o atual coordenador nacional da Pastoral da Saúde, padre José Manuel Pereira de Almeida, não há dúvidas: Feytor Pinto foi "um inovador para o seu tempo", que "rasgou horizontes", ao fazer a transformação "da pastoral do doente para a pastoral da Saúde".

Nos últimos anos, já visivelmente fragilizado pelos problemas de saúde, "deu um exemplo, vivendo o seu sofrimento com otimismo", acrescentou o padre José Manuel Pereira de Almeida, destacando também a grande experiência que Feytor Pinto "adquiriu como capelão hospitalar".

"Esse sofrimento faz parte da vida. O sofrimento, por vezes, tem vantagens, valores. O sofrimento permite-nos, pela esperança, o desafio da ultrapassagem. Cremos vencer o sofrimento, queremos ultrapassá-lo e fazemo-lo às vezes, com barbitúricos e terapias, mas por vezes o sofrimento não vai com terapias vai com o controlo da mente. E acredito que com o controlo do espírito conseguimos serenar no meio do sofrimento", disse Feytor Pinto em entrevista à agência Ecclesia em março de 2020.

*agência Lusa

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