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Gulbenkian apoiou nove mil pessoas vulneráveis durante a pandemia

Gulbenkian apoiou nove mil pessoas vulneráveis durante a pandemia

A Fundação Calouste Gulbenkian apoiou mais de nove mil pessoas, em 2020 e em 2021, através de 69 instituições de todo o país, prestadoras de cuidados a idosos, que ficaram mais isolados durante o período mais crítico da pandemia.

O financiamento de 1,5 milhões de euros do programa Gulbenkian Cuida possibilitou a contratação de recursos humanos especializados, a aquisição de equipamentos e de materiais de apoio aos projetos, fundamentais para proteger as pessoas vulneráveis.

Esta quinta-feira à tarde, na conferência de encerramento do Gulbenkian Cuida, João Cascalheira, do Centro Social Nossa Sra. da Graça, em Baleizão, Beja, contou que criaram o programa "Avós com voz", na Rádio Voz da Planície, para combater o isolamento dos idosos que deixaram de ir ao centro de dia devido à pandemia.

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"Demos voz aos funcionários, aos utentes, aos cuidadores, aos filhos e aos netos, para que pudessem continuar a comunicar e a ouvir-se", explicou João Cascalheira. O impacto foi tal que o programa de rádio se manteve após a reabertura do centro de dia.

Alexandra Luís, da Associação Mulheres sem Fronteiras, em Lisboa, partilhou as dificuldades sentidas, no período mais crítico da pandemia, para ajudar a comunidade africana, cigana e hindu, que partilham o mesmo bairro, devido ao encerramento dos serviços que lhes prestavam apoio.

"As pessoas começaram a fechar-se em casa. Não sabíamos medir a tensão, mas fomos saber", contou Alexandra Luís. "Fomos bater à porta de instituições que podiam facilitar a alimentação, porque tivemos pessoas isoladas muito tempo, pessoas doentes, pessoas internadas e outras que faleceram."

Ninguém ficou sozinho

Empenhada em não deixar ninguém sozinho, a presidente da Associação Mulheres sem Fronteiras garantiu que 140 crianças continuassem a acompanhar as atividades letivas, pois iam-lhes buscar os trabalhos de casa à escola e voltavam a entregá-los no estabelecimento de ensino, depois de feitos.

"Falávamos com as pessoas à janela, gritávamos [para serem ouvidas], mas ninguém ficou sem resposta", garante Alexandra Luís. Relatou ainda que se aproximaram dos homens de etnia cigana, quando as mulheres foram internadas nos cuidados intensivos. "De repente, os homens ficaram sozinhos, com as crianças, e perguntavam-nos: como é que achas que faça?", contou. "Houve uma grande aproximação e isso mostrou que, nos piores momentos, estar lá faz a diferença."

Impacto além da pandemia

Diretor do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável, Luís Jerónimo acredita que "o impacto do Gulbenkian Cuida transcende o tempo de financiamento, pelas respostas que foram possíveis adquirir e pelo recrutamento de pessoas que hoje incorporam a base destas organizações".

Luís Jerónimo destaca, sobretudo, o apoio que foi dado à população mais envelhecida. "Conseguimos ir mais além da tradicional oferta de serviços domiciliários que cobrem necessidades fundamentais, como a higiene e a alimentação, através da monitorização da saúde, da criação de estímulos cognitivos e ao pôr as pessoas mais velhas em contacto com familiares através das tecnologias."

Muitas das pessoas que foram apoiadas eram utentes de centros de dia. "O facto de as entidades passarem a ir a sua casa permitiu-lhes detetar necessidades que não eram tão visíveis e personalizar esses cuidados", assegura ao JN Luís Jerónimo.

Uma agenda prioritária

"De um momento para o outro, as pessoas tiveram um grau de vulnerabilidade maior, ficaram mais isoladas e conseguimos dar uma resposta de proximidade e alavancar parcerias locais e o trabalho em rede", garante o diretor do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável.

Consciente de que a vulnerabilidade dos idosos não desaparece com a pandemia, promete que a Gulbenkian vai tentar acompanhar e dar resposta a esses casos, tal como já sucedia antes. "A agenda do envelhecimento é uma prioridade e continuará a ser, na promoção de autonomia, nos cuidados prestados e no combate à violência sobre idosos."

Luís Jerónimo confessa ainda que ficou "surpreendido" com a apresentação de mais de mil candidaturas. O critério para selecionar as entidades a apoiar teve em consideração a cobertura do território nacional, a experiência das organizações, o potencial de alcance e a diferenciação das respostas.

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