Saúde mental

Gustavo Carona: "Sofri muito, e isso deixa cicatrizes profundas"

Gustavo Carona: "Sofri muito, e isso deixa cicatrizes profundas"

Gustavo Carona tem a compleição forte de quem enfrenta o que vier pelo caminho. De quem aguenta tudo. É "duro de emoções", confessou, numa das crónicas que escreve regularmente.

Mas "trabalhar com estes níveis de intensidade emotiva durante tanto tempo é muito duro. Isto destrói as pessoas", diz o médico intensivista, ao JN. "Estamos a viver uma realidade muito dura no hospital, com um sentido de responsabilidade muito grande, e a pressão de não falhar também é sufocante".

A voz é calma, mas firme. O discurso pausado, mas assertivo. Transmite sempre segurança, mesmo que dentro dele more um turbilhão de emoções. E mora. Uma avalanche delas: ter nas mãos a vida frágil dos que lhe chegam aos Cuidados Intensivos do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, com os pulmões já incapazes de oxigenar o sangue é duríssimo. Saber que não vão parar de chegar ali, àquele fim de linha dos cuidados de saúde, mais e mais doentes é dilacerante.

Diagnóstico: burnout

Intensivista há 10 anos e com tudo o que já viu e viveu nas várias missões humanitárias em cenários de guerra que tem às costas, Gustavo Carona acabou por confrontar-se com os próprios limites em "casa": no final do ano passado, entrou pela primeira vez em burnout. Sufocado pela responsabilidade que pôs nos próprios ombros e pela vontade de a cada momento fazer e dar algo mais - além do trabalho intenso no hospital, decidiu enfrentar também a exposição pública, com que se comprometeu em nome da saúde de todos.

"O motivo pelo qual estamos motivados e mergulhados neste desafio a 100% é também o que nos leva a perceber que rapidamente, ou com alguma facilidade, encontramos o nosso limite. No meu caso, também teve bastante a ver com o sentimento de responsabilidade que fui construindo e acumulando, na vontade de ser um comunicador pela Medicina. Senti que teria de fazer um bocadinho mais, que tinha sempre mais qualquer coisa a dar, mais alguma mensagem que eu pretendia que fosse construtiva, positiva e descritiva daquilo que estamos a viver no hospital. E essa responsabilidade também me sufocou".

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"Ver os números a subir é muito assustador"

A intensidade com que Gustavo vive - "sinto as coisas muito a peito", escreveu - também não o ajudava a libertar-se do remoinho que lhe sugava as forças. "Cada vez que saía do hospital, tinha muitas emoções acumuladas. Dos doentes, dos familiares dos doentes, dos meus companheiros de trabalho... Sentir as caras cansadas e ver os números a subir é muito assustador", descreve o médico de 40 anos. "Senti que não conseguia desligar e que, no tempo livre que tinha, não era de forma alguma capaz de equilibrar os maus momentos que trazia comigo. Mesmo quando era suposto estar livre, descontraído e bem, se calhar estava pior. É o revisitar a dor, mesmo nos tempos em que estava fora do hospital. Para mim, esse foi o grande sintoma que se foi acumulando. Foi o sentir que os tempos livres eram quase piores do que os tempos em que estava ocupado no hospital".

A fadiga soma-se sempre, a cada dia. As noites começaram a ser mal dormidas. O intensivista de Matosinhos fala num "acumular de tristezas e de cansaço". "Primeiro, é o tempo, a insistência do problema. Entrei em burnout em novembro e comecei a trabalhar com a pandemia em março. Em março e abril, eu e os meus colegas levámos uma pancada fortíssima, fortíssima. E não recuperámos, não descansámos. Quase não tive férias. E, depois, é o acumular, a consistência do problema, o perdurar do desafio. O cansaço acumula-se". O caminho para o esgotamento estava aberto.

"Se os profissionais de saúde caírem, perdemos a luta"

"Fui exposto durante mais tempo aos meus limites. Nas minhas missões humanitárias, muitas vezes tive desafios enormíssimos, mas em curtos espaços de tempo - um, dois, três meses, por aí. Sendo que há aqui uma questão que também é importante que se perceba: cada vez que parto em missão, faço-o porque sinto a necessidade, enquanto cidadão do mundo, de exercer medicina onde me parece que ela é mais necessária. Mas não consigo ser hipócrita ao ponto de dizer que sinto noutras partes do mundo o mesmo afeto que sinto na minha casa, com os meus familiares e amigos. Para mim, o desafio neste momento é a 360 graus: quando estou a ver doentes que têm a minha idade, projeto os meus amigos, quando vejo doentes que têm a idade da minha mãe, projeto a minha mãe. Há aqui um impacto muito difícil de explicar", conta Gustavo Carona, que lamenta o facto de haver "pessoas que, ainda hoje, não compreenderam o seu papel individual naquilo que é este desafio coletivo" da pandemia de covid-19.

"Quando vemos que já estamos a chegar ao limite e ainda se prevê uma subida de números de doentes críticos, é angustiante, não é? O que é que fazemos? E agora? Isto tira-nos muitos anos de vida", suspira. "O número de doentes que carece de hospitalização e, mais ainda, o número que carece de cuidados mais diferenciados, nos cuidados intensivos, é suficiente para bloquear todo o serviço de saúde e, depois, para causar um desgaste enormíssimo nas pessoas que dedicam a sua vida a salvar vidas e que, se caírem, se se cansarem e se entrarem em burnout, não vai estar lá mais ninguém para salvar e tratar as pessoas da doença covid e de todas as outras doenças não covid. Se estas pessoas caírem, perdemos a luta contra este desafio", alerta o médico intensivista, lembrando que "as alternativas ao controlo da pandemia são absolutamente desumanas".

Com o burnout, Gustavo Carona teve de parar para recuperar. Regressou ao hospital em dezembro. Mas as marcas dos intermináveis dias da pandemia vão ficar-lhe gravadas para sempre. "Sou uma pessoa completamente diferente do que era há um ano. Sofri muito, e isso deixa cicatrizes profundas. Também deixa grandes aprendizagens. Infelizmente, aprendemos muito com o sofrimento. É o aspeto positivo dos grandes desafios: ganhamos caráter, resiliência e capacidade de choque. Mas sem dúvida que vou ser uma pessoa bastante diferente, porque apesar de já ter visto muita coisa, isto foi - ou está a ser, porque ainda está longe de ter acabado - um desafio que é maior do que aquilo que sou capaz".

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