Covid-19

Há 87 concelhos do país que estão a escapar ao vírus

Há 87 concelhos do país que estão a escapar ao vírus

A propagação do novo coronavírus em Portugal está longe de ser simétrica.

O Norte concentra mais de metade dos casos, mas a distribuição concelhia dos infetados que a Direção-Geral de Saúde (DGS) divulga todos os dias permite perceber que as zonas com menor densidade populacional são, por regra, as que melhor resistem à pandemia. Até ontem, havia 87 municípios a escapar aos efeitos do vírus, registando menos de três casos de infetados, o que equivale a 28% do território, composto por 308 municípios. Com três casos, há ainda a somar dez municípios. Ou seja, há 97 concelhos com três ou menos infetados.

O distrito de Portalegre, com cerca de 120 mil habitantes, é o menos populoso de Portugal e também o que tem mais concelhos fora da lista da DGS, que só divulga concelhos com três ou mais doentes. Dos 15 concelhos do distrito portalegrense, há 13 que estão fora da lista da DGS. Só Portalegre (cinco) e Elvas (oito) têm um número de infetados superior a três. Ainda assim, ambos abaixo da dezena. O distrito do Porto é o pior, com 15 concelhos acima dos 100 infetados.

Para Pedro Simas, virologista do Instituto de Medicina Molecular, o fator fundamental é o contacto entre pessoas: "Pelas suas características, estes concelhos estão a escapar a um problema de serem avassalados por um número de casos de infeção grande num curto espaço de tempo".

Margarida Tavares, infecciologista do Hospital S. João, acrescenta: "Nas terras mais pequenas ou nos distritos mais pequenos, o que pode acontecer é a epidemia concentrar-se em locais mais específicos, como lares e unidades de saúde. Basta um profissional para desencadear um conjunto de casos".

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Porto e Lisboa são as duas cidades com mais casos. Assim, há uma tendência para os concelhos menos populosos serem os que têm menos casos. Têm menos movimentos entre concelhos, inexistem unidades fabris de grande dimensão e conseguiram preparar a resposta em possíveis focos de contágio como lares ou centros de saúde.

Mas a população não é o único fator. Os concelhos que estão fora da lista da DGS também beneficiaram "de estarem afastados dos aeroportos", alguns tiveram capacidade de reagir mais cedo que outros à pandemia e também tiveram o fator sorte, refere a infecciologista: "Mesmo nos territórios de baixa densidade, se aparecer um caso num lar ou unidade de saúde, o risco de propagação é grande". A questão dos aeroportos confirma-se pelo mapa de contágios. As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto são as mais afetadas e, a sul da capital, a região mais atingida fica no triângulo Albufeira-Loulé-Faro.

"Aqui não há bicho que nos pegue, nem aqui dentro, nem lá fora". Certeza de Alzira Saavedra, mondinense de 83 anos, proferida enquanto aguardava vez na padaria em frente aos Paços do Concelho. "Sou diabética, sofro do coração, mas faço a minha vida normal. Ando de táxi e vou às compras sozinha", conta uma das habitantes de um concelho que, até ontem, tinha zero casos de covid-19.

Respira-se, em Mondim de Basto, um clima de confiança mas não de deslumbramento porque, recorda Carlos Moura, proprietário da padaria, "de início, as pessoas de idade tiveram dificuldade em perceber o que lhes pediam". Depois, a informação foi passando e "ganharam responsabilidade", num concelho pequeno onde "é mais fácil o confinamento", justifica. Na padaria, o movimento aumenta e "já há famílias inteiras" a quererem ocupar mesas como antes, lamenta Carlos, que assume o orgulho por Mondim estar ainda sem casos positivos.

Para Teresa Rabiço, autarca de Mondim, a chave do sucesso foi "a rapidez com que se tomaram medidas", a cooperação das juntas de freguesia, IPSS e bombeiros, porque "num concelho envelhecido seria dramático agir tarde". Sucederam-se ações de sensibilização junto da população, "num concelho disperso, com gente isolada, mas toda a comunidade se uniu". Na Páscoa, temeu-se o regresso dos emigrantes mas, como as aldeias são pequenas e todos se conhecem, "quem chegava era monitorizado pelas juntas, pelas IPSS ou pela GNR. Ficava em quarentena e respeitou-se as famílias", conta Teresa Rabiço.

Tudo fechado

Com os serviços fechados na vila, cancelamento das feiras e a maior parte do comércio de portas encerradas, "foi mais fácil manter as pessoas em casa e foi criada uma linha para apoio ao fornecimento de medicamentos e bens de primeira necessidade. Os produtos chegavam a casa das pessoas sem saírem de casa", explicou.

Ciente de que "a pandemia não passou", Teresa Rabiço confia "muito nas pessoas de Mondim" para que se mantenham alerta. A autarquia vai distribuir máscaras e viseiras pela população.

O centro da vila de Mesão Frio não está deserto, mas quase. Uma pessoa aqui, outra ali, uma que passa, outra que entra num comércio. O concelho é pequeno, mas não é isso que lhe despovoa a principal praça da sede. Antes o receio do SARS-CoV-2, o vírus que parou o Mundo, mas que parece andar arredado desta terra duriense. Zero casos, até ontem.

"Espero que assim continue", atalha Fernando Ferreira, nascido e criado em Mesão Frio, a descansar à sombra de uma árvore em dia quente. Esteve "cinco semanas de quarentena", mais "por causa de uma infeção numa perna" do que por visita do coronavírus, porque ele ainda não chegou e "é bem que se deixe estar lá".

De passagem a caminho das Finanças, outro Fernando, este Teixeira, leva máscara posta. "As pessoas souberam respeitar as normas e ficaram em casa", opina, enquanto o Ferreira, ainda com a máscara no bolso por estar sozinho, tem em boa conta "a prestação do presidente da câmara, que tomou logo medidas para proteger os seus conterrâneos".

Protegida ia uma senhora, a par de outra e de um homem, os três com sacos de compras, máscaras a cobrir o rosto, a fugir do repórter, também de cara tapada, que "agora a gente nem vê a cara das pessoas, nem sabe bem o que dizer e, mais a mais, a gente tem é medo de tudo". E ala, os três esguios pela rua abaixo a praguejar contra esta nova forma de viver e o repórter com as orelhas a arder.

O presidente passou de carro. Com máscara. Manter o concelho a zeros exige disciplina. Como exigiu, no início de março, "uma boa comunicação das entidades com os munícipes". Alberto Pereira diz que "até se anteciparam ao Governo nas medidas de contingência". E depois pesou o "respeito por elas que todos demonstraram desde o princípio". Nos lares de idosos, vinca, já se entrou na "quarta quinzena de confinamento total", com equipas a trabalhar em "espelho" e "visitas proibidas".

Santa Marta protege

O relatório epidemiológico da Direção-Geral de Saúde gelou ontem Santa Marta de Penaguião. Três casos. O presidente da Câmara, Luís Machado, foi averiguar. "As três pessoas vivem há bastante tempo em lares de outro concelho, mas como a morada fiscal ainda está cá, são contabilizados em Santa Marta". Menos mal. Na prática, continua a zeros e o autarca diz que tal se deve ao "bom comportamento dos penaguienses, que acataram as medidas e cumpriram as normas".

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