Entrevista JN/TSF

Henrique Barros: "Acho muito bem que as pessoas isoladas sejam autorizadas a ir votar"

Henrique Barros: "Acho muito bem que as pessoas isoladas sejam autorizadas a ir votar"

Foi o rosto do combate à sida. E agora é um dos rostos que combatem o negacionismo das vacinas contra a covid. Especialista em saúde pública, Henrique Barros concorda com o voto presencial de isolados e defende que já poderíamos ter encontrado "uma forma mais inteligente" de lidar com as medidas restritivas. É tempo, diz, de preparar a transição e alterar os isolamentos.

Na última reunião de especialistas do Infarmed, disse que é "bastante exagerado" falar em fim da pandemia. Está otimista, ainda assim, quanto à fase de transição que estamos a viver?

Sim, a transição era esperada e isso quer dizer também que deve ser preparada. O olhar sobre os números, que são uma espécie de espada sobre nós, tem de ser moderado por um conjunto de informações. Por um lado, particularmente no caso português, a enorme quantidade de pessoas que estão vacinadas. Por outro lado, a enorme quantidade de testes que estão a ser feitos. Outro aspeto que é muito importante e provavelmente cria perplexidade é: "Mas então porque é que com tantas infeções não temos a carga que tivemos sobre os serviços de saúde?". E aqui vale a pena, também, não olhar para as coisas como se elas não tivessem modelações. É que, na realidade, a nossa própria forma de agir perante os casos de infeção varia ao longo do tempo. Em março de 2020, internávamos as pessoas que tinham uma suspeita de infeção. Depois internávamos pessoas que estivessem infetadas mesmo que sem qualquer sintoma. Depois fomos internando apenas as pessoas que tinham sintomas, depois a quem prevíamos uma maior gravidade. Ou seja, nós fomos aprendendo.

Fomos aprendendo ou fomos desvalorizando? Quando olhamos para os últimos números, há novamente uma pressão maior sobre o SNS.

Pelo menos profissionalmente, não desvalorizamos no sentido de não estar atentos aos sinais de gravidade e até temos hoje uma maior capacidade de os antecipar. Como sociedade, fomos desvalorizando.

É positivo que estejamos a lidar com a covid de forma diferente?

Sim, se isso quiser dizer que deixamos os medos injustificados, que temos uma aproximação mais racional às coisas.

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Falamos muito no regresso à chamada normalidade. Acredita que vamos conseguir voltar ao ponto de partida ou marcas como esse medo que refere vão ficar?

Espero que não voltemos ao ponto de partida. Porque isso quereria dizer, em boa verdade, que não tínhamos aprendido nada de muito importante ou de especial com tudo o que passámos. E quereria dizer que voltávamos a um tempo em que cometíamos erros que já sabíamos que eram erros. Por exemplo, sabendo que em certos períodos do ano é muito elevado o número de infeções respiratórias, tínhamos uma tradição de fazer duas coisas erradas. Uma era de não nos recolhermos, não evitarmos transmitir a infeção a outras pessoas, mantendo a nossa vida estando sintomáticos, tossindo, febris, com dores. Não é por eu ir nesses dias trabalhar que sou mais produtivo, que sou melhor pessoa. Bem pelo contrário.

Mas essa ideia tem um peso muito forte na sociedade. É algo corrente ouvirmos "a covid agora serve para as pessoas irem para casa".

Uma das coisas que precisávamos de aprender era a acreditar mais uns nos outros. A retirarmos uma carga burocrática de atestados, de papelada que está resolvida há muito tempo na maior parte dos países do Norte da Europa e da Europa central, em que as pessoas não usam a sua saúde como uma justificação para outras finalidades. Precisamos de confiar que quando digo "eu hoje estou doente", estou verdadeiramente doente.

Percebe-se o que diz sobre o recolhimento quando há sintomas, mas foi desde o início bastante moderado nas políticas de contenção do vírus. Deixámos que a pandemia nos limitasse demasiados direitos?

Sinceramente, creio que sim, porque há sempre a possibilidade de haver alguma deriva autoritária na forma de gerir estas situações. E isto está provavelmente mais marcado quando vivemos numa sociedade em que tendemos a não confiar uns nos outros, em que nos habituamos a expedientes, o que é um sinal da pobreza. Há 30, ou 40, ou 50 anos, ainda éramos globalmente muito mais pobres e, portanto, vivíamos uma inquietação e uma dificuldade maior em acreditar que as instituições funcionavam. A dificuldade é encontrar o ponto ideal em que a nossa resposta é proporcional aos riscos que corremos. Mas isso era muito difícil de fazer, sobretudo perante uma ameaça nova. Todos fomos dizendo, até para diminuir a ansiedade que vivíamos, que era difícil prever uma situação destas. Mas isto não era a verdade toda.

Não era imprevisível?

Não ouvimos os alertas e, sobretudo, não nos preparámos para qualquer coisa como esta. Basta lembrar aquele célebre exercício que tinha sido feito exatamente no ano anterior ao eclodir da pandemia, em que foi feito um cenário de como seriam capazes de responder os serviços, onde faltavam os investimentos e os recursos, havia ou não havia coordenação... Tínhamos obrigação de estar mais bem preparados, enquanto instituições e organização de resposta, e diga-se em abono da verdade estar mais bem preparados enquanto cidadãos. Até podemos ir mais atrás: desde pelo menos 2014 que a OMS chamava muito a atenção para aquilo que ficou designado genericamente como a doença X, a ideia de que uma pandemia, um encontro brutal com uma infeção de enorme gravidade, poderia acontecer. Estamos muito mais preocupados com a resposta ao imediato, mas precisávamos de investir mais em como nos preparamos para aquilo que sabemos que vai acontecer.

Com o número de casos a aumentar, as pessoas questionam-se sobre o verdadeiro efeito das vacinas e a morte de uma criança de seis anos alimentou muita especulação, esta semana, sobre um eventual efeito adverso. Mantém a confiança inabalável na vacina?

Fui muito cauteloso, se me permitem utilizar o termo, em três aspetos em relação à vacina. Em primeiro, era tentar responder a esta pergunta: porque é que nós conhecemos os coronavírus, que são responsáveis por um sexto das infeções respiratórias, desde os anos 60 e nunca fomos capazes de fazer uma vacina? Não tínhamos sido capazes porque não parecia que as infeções por estes agentes fossem capazes de dar elas próprias uma imunidade longa. Esta era a primeira preocupação: será que vamos dar agora o salto e encontrar uma vacina eficaz? A segunda preocupação tinha a ver com a possibilidade de a fazer rapidamente. O terceiro ponto é: era possível que houvesse variações nas características do agente e que escapasse àquilo que tínhamos como resposta vacinal. A partir do momento em que foi possível ter uma vacina, essa era a nossa arma fundamental para nos trazer à tal normalidade de que se fala. É um ganho civilizacional extraordinário, não tenhamos dúvidas.

Admite que as reservas em relação aos mais novos fazem sentido? Não é de certa forma injusto ou perigoso que qualquer posição crítica seja associada a negacionismo?

Nessa perspetiva, inequivocamente. Agora, não há razão nenhuma para pensar que as crianças não deviam ser vacinadas dentro das condições de segurança e de eficácia que existem.

Mas houve posições antagónicas. No início deste processo, as crianças saudáveis não precisariam de ser vacinadas. Depois houve uma inversão de posições, sem que tenha sido claro para os pais quais eram os benefícios.

A infeção quando chega encontra uma população suscetível. E a proteção das pessoas e a probabilidade de infetarem foi diferente. Quando começou toda a gente a ser vacinada, era inevitável que a infeção ocorresse nas crianças. Portanto, o que está a acontecer agora não é uma especial afinidade desta variante para com as crianças, mas sim elas estarem disponíveis. Como demorámos demasiado tempo a vacinar as grávidas e com isso tivemos problemas muito graves, que podiam ter sido evitados. Emocionalmente, é muito compreensível. Nós não queremos que uma criança corra qualquer espécie de risco e então imaginamos que o pequeno risco que pudesse haver na vacina é inaceitável. Mas devo chamar a atenção para o seguinte: a vacina é uma tecnologia de saúde, é uma medida de que dispomos não só para proteger cada um de nós, mas para nos protegermos coletivamente e fazer diminuir a circulação do vírus, e as crianças fazem parte da resposta.

Já disse que somos bombardeados diariamente com números. Os boletins diários da DGS, na forma como são feitos, são um erro nesta altura?

A informação transparente era muito importante no início da pandemia, até para que não se criasse nas populações a ideia de que não nos estavam a dizer toda a verdade. O erro de continuarmos a olhar para o número de casos neste momento é porque nos distorce a forma de pensar. Muitas das pessoas internadas nos hospitais com covid estão internadas porque têm outros problemas. Aqueles 150 casos aproximadamente de pessoas que estão nos Cuidados Intensivos, esses sim, são os que nos marcam o peso da gravidade da infeção. É que isto mostra que a vacina funciona.

Como é que avalia a decisão de permitir que as pessoas isoladas votem presencialmente?

Acho muito bem. E porquê? Porque as medidas de proteção, o distanciamento, as máscaras, a lavagem das mãos, etc., isso funciona e o tempo que as pessoas vão usar para ir votar é um tempo muito curto. As pessoas também saem de casa para ir fazer testes ou para irem a uma consulta se precisarem. Portanto, temos é de organizar a melhor maneira de, nos locais de votação, minimizar o risco, que de si já é muito pequeno. Temos de acreditar uns nos outros e não usar o argumento de que as pessoas vão aproveitar para fazer outras coisas. Sejamos sérios!

Tem sido muito usado o argumento de que, depois das eleições, será mais difícil as pessoas respeitarem o isolamento. Acredita que vamos evoluir para também o isolamento ser questionado nos atuais moldes?

Sem dúvida, e há muito tempo que podíamos ter encontrado uma forma mais inteligente de resolver estas coisas. Talvez seja muito duro dizer isto, mas todos nós quando não sabemos explicar gritamos, quando não sabemos convencer batemos, portanto a utilização do argumento da autoridade é, por um lado, uma forma de infantilização dos outros e, ao mesmo tempo, a nossa incapacidade de ter uma melhor solução. Não precisamos é de imaginar uma espécie de mundo confinado ou um modelo como o usado na China, onde o valor da liberdade, a relação entre os direitos, a participação das pessoas nas decisões não são particularmente valorizados. E estamos a esquecer-nos de outra coisa. É que temos agora armas que não tínhamos e a arma essencial são os testes. Os testes têm falsos positivos, têm falsos negativos, é verdade, não são perfeitos, mas é com o que temos de viver.

Estamos preparados para rever os isolamentos?

Espero que sim. A questão não é de falta de rigor. Esta maneira de colocar o problema até pode ser contraproducente, porque dá uma ideia de que agora não temos mão sobre as coisas. Não é exatamente esse ponto. Nós fizemos um processo de aprendizagem. Inclusive, noutros momentos, já teremos sido excessivos. Mas era compreensível que houvesse um receio maior porque a quantidade de informação era menor. Ainda hoje há pessoas que estão a dizer "é melhor fechar as escolas outra vez". O problema é que na vida temos sempre de fazer balanços nas medidas que tomamos. Se nos fechássemos, isso é incompatível com a sociedade permanecer sociedade.

Os mais jovens perderam particularmente com esta crise e com o encerramento das escolas?

Sim, é possível. Os primeiros anos de vida são fundamentais na determinação não só dos aspetos da nossa vida social, mas do que vai ser a nossa saúde. E todas estas coisas andam juntas. Devemos ser muito cuidadosos a proteger essas populações, permitindo-lhes que mantenham o mais possível aquilo que sabemos que é essencial no seu desenvolvimento. E as escolas foram claras a demonstrar que não eram um local de risco. A infeção nas escolas é semelhante à infeção na comunidade. Agora dir-me-ão: mas isso não é o que acontece agora. Pois não, porque neste momento são só as crianças que estão suscetíveis. E o que é que vamos fazer? Fechá-las definitivamente para que não infetem? Ou, pelo contrário, aproveitar o que sabemos: testar, identificar rapidamente, criar condições para que voltem o mais depressa possível à escola, estar atentos à gravidade das infeções.

A saúde tem estado presente no debate político. Vamos a tempo de reforçar o investimento no Serviço Nacional de Saúde?

Onde é que falhámos e valerá, seguramente, a pena investir? Vale a pena investir na organização, na qualidade. Investimos muito pouco na qualidade das instalações, do atendimento, na qualidade da relação entre pessoas. E, depois, há uma coisa que fomos incapazes de fazer: falhámos na capacidade de garantir que o Serviço Nacional de Saúde era verdadeiramente o navio-almirante. Era onde se encontrava a grande inovação, o grande investimento, o grande pensamento sobre a saúde. E esquecemos um aspeto que é determinante: promover a saúde e prevenir a doença. Só olhamos para o SNS como instituição de cura. Temos de ter dentro do SNS uma verdadeira estratégia de diminuir a carga de doença, e a carga de sofrimento das pessoas.

Ouça a entrevista completa este domingo ao meio-dia na TSF

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