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Hospitais denunciam falta de preparação para lidarem com ciberataques

Hospitais denunciam falta de preparação para lidarem com ciberataques

A presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, Margarida França, alertou, este sábado, para a falta de preparação das unidades hospitalares e de cuidados primários para lidarem com ataques informáticos e tirarem o máximo partido da digitalização.

"Nós não temos os nossos serviços de informática preparados para a realidade dos dias de hoje", lamentou Margarida França, durante o XI Fórum Saúde para o Século XXI - A Transformação Digital em Saúde, que decorreu na Universidade de Aveiro. "Nós temos que reforçar com competências os nossos hospitais urgentemente, porque o que aconteceu nos últimos dias... nós andamos a trabalhar atrás do prejuízo", acrescentou, referindo-se aos ataques informáticos que aconteceram esta semana no hospital Garcia da Orta (Almada) e na Unidade Local de Saúde Litoral Alentejano. "É absolutamente necessário capacitar as nossas unidades de saúde com competências nestas áreas para podermos de facto vencer este desafio" e trabalhar com "qualidade e segurança".

Em resposta, Luís Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), disse que este é "um mal geral em todas as organizações do mundo, nenhuma diz que tem técnicos informáticos a mais". Para o responsável, é preciso "tirar mais valor das equipas que existem", apesar da "atomização do setor da saúde" criar "complicações severas" neste campo.

"Se tivermos em conta que todos os hospitais do país têm autonomia no que a esta área diz respeito, que as ARS têm uma dose muito significativa de autonomia nesta área, percebemos a dificuldade que é otimizar recursos neste contexto", explicou. Há "muitas duplicações, triplicações, multiplicações de infraestruturas que podiam ser centralizadas, com melhor desempenho e muito mais eficientes do ponto de vista da gestão de recursos", referiu ainda, explicando que este é "um caminho que está a ser seguido".

Falta especialização

Estabelecendo um paralelo com a medicina, disse que os problemas informáticos não se resolvem com "médicos de medicina geral e familiar informática", sendo necessária "especialização", o que é difícil sem "escala".

Antes, o responsável dos SPMS havia salientado que, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, há verbas para a digitalização em saúde. Uma área que "está especialmente beneficiada no sentido de ter recursos à sua disposição", apesar dos "ventos contrários", como a "pressão inflacionista no que respeita a bens, mas, especialmente, técnicos especializados na área".

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Ao longo da manhã, vários especialistas lançaram alertas e preocupações sobre o trabalho que ainda há a fazer na área da digitalização em saúde e para garantir a cibersegurança dos dados.

Tiago Teixeira, chefe do serviço de infeciologia do Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, considerou que, "de nada nos vale transformar digitalmente os processos, se os processos analógicos não forem eficientes". "Dentro do SNS, estamos longe de ter a garantia da eficiência dos processos digitais", revelou, explicando que, por um lado, "são precisas diversas ferramentas para trabalhar melhor a eficiência" e, por outro, é necessário ter "recursos humanos".

Instituto para dados em saúde

Para Valentim Lourenço, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, os ataques desta semana demonstram "a fragilidade e a necessidade de termos formas seguras e alternativas para resolver no próprio dia algo que era normal tratarmos".

Quanto ao regime de proteção de dados, Valentim Lourenço considerou que é "importante ter uma política para os dados em saúde", que pode passar pela criação de "um instituto para os dados em saúde", com ligação à academia e autoridades em saúde, "que permita retirar dados de forma anonimizada". "Precisamos destes dados para tratarmos melhor os nossos doentes", disse, defendendo que, se trabalharmos os dados "de forma anónima, podemos retirar informação importante para a sociedade, fazendo avançar a medicina".

Na Ordem, revelou ainda Valentim Lourenço, "já há uma proposta para uma competência em medicina digital, mas primeiro ainda temos de descobrir melhor o que é isto". Os médicos "terão de trabalhar com muitos sistemas e terão de ter competências específicas para trabalhar com eles", mas não podem perder de vista o principal, que "continua a ser tratar doentes e não construir sistemas informáticos", alertou.

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