Preocupação

Imigrantes receiam futuro mas não pensam voltar aos seus países

Imigrantes receiam futuro mas não pensam voltar aos seus países

Alguns imigrantes chegaram há menos de um ano a Portugal e nem a falta de título de residência lhes rouba a esperança.

Estão longe da família - muitos aterraram em Portugal há menos de um ano - a viver uma pandemia que não lhes roubou a esperança de ficar num país que todos dizem amar. São brasileiros e venezuelanos. Uns fugiram à insegurança, outros chegaram à boleia do boom turístico para abrir os próprios negócios. Agora, todos olham para o outro lado do Atlântico com "medo" pela família. Sabem que o futuro não será fácil, mas nenhum se resigna à ideia de voltar. A esperança renovou-se com o despacho do Governo que regulariza todos os imigrantes com pedidos pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) - que tem esperas de um ano - garantindo-lhes acesso a apoios sociais, nomeadamente subsídio de desemprego.

Luciana Mozzini: "Vamos ter de nos reinventar"

Luciana Mozzini, 32 anos, trabalha a recibos verdes num ginásio e tem contrato de trabalho num estúdio de pilates. Está desde 12 de março em casa, porque duas alunas do ginásio testaram positivo à Covid-19. Quando, em 2018, se mudou de Rio Grande do Sul, no Brasil, para S. João da Madeira, "pela insegurança", não imaginava viver isto. "Mantenho parte do meu rendimento, continuo a dar aulas online. Claro que tenho apreensões, todos vamos sofrer, os rendimentos vão cair". Vive com o marido, consultor imobiliário, os dois filhos e a sogra, todos brasileiros. E o seu maior receio é a saúde. "A minha maior preocupação é a minha sogra, tem 81 anos", confessa. Tem os pais no Brasil, mas não se sente sozinha. "Fiz muitos amigos cá, são uma família".

Só teme pelos pais. "São novos, têm 54 e 55 anos. Mas sinto que ainda acham que não vai ser tão grave assim". A mãe evita sair, o pai não. "Diz que a imprensa está a exagerar. É muito difícil acreditar quando não se está a viver isto. No Brasil é tudo muito polarizado. As pessoas que apoiam Bolsonaro apoiam-no cegamente. É ridículo". Mas Luciana é positiva. "Vamos ter de nos reinventar".

Berenice Molina: "Fiquei sem rendimento"

Fechou as portas do cabeleireiro que tem nos Carvalhos, em Gaia, depois de decretado o estado de emergência no país. A venezuelana Berenice Molina já conta 21 anos cá, tem "fé que isto vai passar", mas diz que a situação "é complicada". "Fiquei sem rendimento, a sorte é que tenho algum de lado". Há dois meses, foi buscar o pai à Venezuela. "Foi um choque para ele chegar e não poder sair à rua. Tem 77 anos, tento distraí-lo e falar-lhe do lindo Portugal". Berenice tem cá os filhos, os netos e o companheiro. Os irmãos estão na Venezuela. "A Venezuela está a viver um momento difícil e isto será o caos. Falo com o meu irmão, é advogado e agora está em casa. Lá, só um membro da família pode sair durante a manhã. Já houve mortes". Teme que a pandemia vá destruir mais ainda um país já destroçado. No voo em que trouxe o pai, vinham venezuelanos "à procura de uma melhor vida". "De repente, acontece isto. Vejo amigos que perderam o emprego a quererem ir embora. Os que não têm título de residência ficam sem nada. Mas um guerreiro não baixa as armas. Não vou largar Portugal, amo este país", diz.

Matheus Suzart: "Preocupado com o Brasil"

Matheus Suzart, 29 anos, deixou Salvador da Baía, no Brasil, com o pai, e chegou a Portugal há menos de um ano para abrir um restaurante em Esmoriz, Ovar, onde vive. O negócio não deu certo. Agora, trabalha num "call center". Está em teletrabalho com os colegas. Não tem título de residência, já fez o pedido ao SEF. "Pensei voltar para o Brasil, mas o meu chefe garantiu que o trabalho ia continuar. Está a ser um bom momento, as pessoas estão em casa e têm tempo". Vive num concelho sitiado, mas diz que "isolar Ovar foi sensato e Portugal está a fazer um ótimo trabalho". O pai trabalha num café em Esmoriz e tem receio que ele perca o trabalho. "Está em casa. Não o vejo há mais de uma semana. Tem 59 anos". Longe do resto da família, Matheus fala com a mãe, o irmão e o padrasto amiúde. "Estou muito preocupado com o Brasil. Nestes momentos de crise, qualquer pessoa quer ficar perto da família. Aconselhei-os a ir para a fazenda que temos", conta quem diz ter "vergonha" do presidente do seu país. "Bolsonaro está a pôr em risco as pessoas". A namorada conseguiu sair de Ovar e ir para o Brasil, mas Matheus quer ficar. "Portugal é um paraíso. E todo o mundo vai passar por um momento escuro".

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG