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Impactos psicossociais e económicos da covid penalizaram mais os jovens

Impactos psicossociais e económicos da covid penalizaram mais os jovens

Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos alerta para "face oculta" da pandemia. Investigadores apontam para tripla desigualdade: económica, social e política.

Mais do que pandemia, sindemia. Com impactos ao nível económico, social e político. Agravando o fosso das desigualdades. Com um impacto "inesperado" sobre os jovens. "O Portugal pandémico não é um país para jovens". Uma das principais conclusões do estudo "Um novo normal? Impactos e lições de dois anos de pandemia", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) e coordenado por Nuno Monteiro e Carlos Jalali. Em debate, hoje e amanhã, em Lisboa, no encontro "Outra vez nunca mais".

Do ponto de vista laboral, este efeito nos mais jovens decorre, por um lado, explicam os investigadores, de contratos precários e, por outro lado, de uma maior concentração em setores diretamente encerrados ao abrigo das medidas restritivas para conter a pandemia. No final de 2021, notam, "entre os mais jovens, havia cerca de mais 20 mil inscritos" no Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Já a penalização psicossocial mede-se em números: "Um em cada dez jovens refere que passou a consumir calmantes" e "um em cada dez diz que sofreu alterações no consumo de tabaco e álcool". Revelando ainda "menor sentimento de bem-estar, menor satisfação com a vida e mais níveis de depressão, ansiedade e stresse durante o período da pandemia".

Menor confiança

Acresce uma desigualdade política, que se agravou nestes dois anos pandémicos. Apresentando os jovens "menores índices de confiança no Governo e na ciência". Sendo que, explica ao JN Carlos Jalali, "o sistema político tende a ser menos responsivo às pessoas que participam menos".

Conforme vincam no estudo, "o impacto nos jovens é um aspeto central, e até agora negligenciado". Uma "face oculta da pandemia" que, defende o professor e investigador da Universidade de Aveiro, "obriga a pensar na resposta a dar para que esta marca não deixe cicatrizes no futuro".

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Tripla desigualdade

A tripla desigualdade gerada pela pandemia - económica, social e política - "agravou o fosso" já existente e é outra das dimensões relevadas pelos investigadores. "É absolutamente vital assegurar mecanismos de recuperação", frisa o coordenador do estudo.

A terceira dimensão prende-se com "a monitorização, planificação e desenvolvimento da capacidade do Estado para responder a crises como a pandemia". E, aí, afirma Carlos Jalali, "a resposta à pandemia, em larga medida, foi dada através de estruturas informais e ad hoc". Sendo por isso "importante assegurar que as aprendizagens adquiridas não se perdem e desenvolvemos competências que são permanentes em estruturas administrativas para fazer face a novas pandemias", defende.

Numa última dimensão, a evidente "necessidade de maior coordenação e cooperação internacionais". De, como Carlos Jalali gosta de dizer, "olhar para a Terra como um só país". Se assim tivesse sido, acredita, "teríamos tido uma pandemia mais curta". Tanto mais que, como lembram nas conclusões do estudo citando Einstein, "a política é mais difícil do que a física".

Homenagem

Os meses de investigação vertidos agora em 340 páginas são uma homenagem a Nuno Monteiro, "um académico de reputação internacional, professor na Universidade de Yale e com raras qualidades humanas", precocemente falecido no ano passado, substituído na coordenação por Carlos Jalali.

Trabalho de campo

Entre várias fontes, o estudo suporta-se num inquérito de opinião à população feito em duas vagas. Na primeira, entre 16 de março e 20 de maio de 2021, com 3463 entrevistas. Na segunda, entre 6 de setembro e 25 de outubro do ano passado, com a reinquirição de metade da primeira amostra.

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