Pandemia

Incidência da covid-19 duplicou nas duas últimas semanas

Incidência da covid-19 duplicou nas duas últimas semanas

Portugal com 901 novos casos por 100 mil habitantes. Constantino Sakellarides, antigo diretor-geral da Saúde, alerta para "falência da Saúde Pública", peça-chave no combate.

Em duas semanas a incidência de covid-19 em Portugal - medida pelo número de novas infeções a 14 dias por 100 mil habitantes - quase duplicou, estando agora acima dos 900. O triplo do registado por países como França ou Alemanha, onde as vagas começaram mais cedo, com confinamentos mais musculados. Com a Saúde Pública sem mãos a medir, perde-se o controlo da transmissão na comunidade, avisa Constantino Sakellarides. Com efeito bola de neve: infeções, internamentos e óbitos.

De acordo com os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, Portugal fechou a primeira semana deste ano (4 a 10 de Janeiro) com 901 novos casos por 100 mil habitantes. O que representa um crescimento de 93% no espaço de duas semanas: no período do Natal (21 a 27 de dezembro) a incidência estava nos 466. Sendo que o valor mais alto havia sido registado na semana de 16 a 22 de novembro, pico da segunda vaga, com 792 novas infeções por 100 mil habitantes.

Olhando o panorama europeu, a incidência no nosso país, a quinta mais alta, é o triplo da registada em França e na Alemanha, onde as vagas chegaram mais cedo e os confinamentos foram mais severos. Em ambos os países, neste momento, as escolas estão encerradas.

Quanto à taxa de letalidade, no final da primeira semana de janeiro tinha subido para as 121 mortes por um milhão de habitantes, a décima mais elevada.

Rutura na Saúde Pública

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Mais do que nos compararmos com aqueles países, neste momento em situação de pós-vaga quando Portugal está em máximos, importa atentar à raiz do problema. A rede de Saúde Pública. "Com dias seguidos com dois mil novos casos (e não dez mil, como agora), a rede fica inundada, não consegue responder, os inquéritos epidemiológicos atrasam-se, não se fazem, e deixamos de controlar a transmissão na comunidade", alerta Constantino Sakellarides, antigo diretor-geral da Saúde.

E é aqui que urge atacar, porque os "aumentos de casos e internamentos surgem depois da falência da Saúde Pública, se não olharmos para isto não chegamos a tempo", diz ao JN o professor jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública.

Área que, entende, não está a ser analisada e das quais não há dados. Sendo a informação um ponto-chave para Sakellarides. Não basta dizer, como fez o primeiro-ministro, que a curva cresce por causa da população entre os 20-29 anos. "Quantos testes foram feitos, onde? Se temos pouca testagem é porque perdemos o controlo da Saúde Pública", frisa.

Quanto à tomada de decisões, desmonta aquilo que entende ser um "processo único": as reuniões do Infarmed. "Não se pode dizer que ouvimos dez [especialistas] e como disseram coisas diferentes, não há consenso e toma-se uma decisão política", critica Sakellarides. Recorrendo ao que fazem os "países avançados - não fazem Infarmed's, têm comissões científicas, interagem entre eles, chegando a uma interpretação comum; é assim que se chega a um consenso".

Testagem

De acordo com os dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), na primeira semana deste ano estávamos a testar 3391 por cada 100 mil habitantes. É a nona taxa mais alta nos 28 países analisados pelo ECDC. No período de Natal e Ano Novo a testagem caiu em todos os países, sublinham. A taxa de positividade, por sua vez, estava nos 16,5%.

Faixas etárias

O primeiro-ministro, António Costa, explica a subida exponencial de novas infeções na faixa etária dos 20-29 anos. O ECDC não faz essa desagregação, mas é entre a população dos 15-24 anos de idade que se encontram das mais altas incidências, com 1117 novas infeções por 100 mil. A mais alta é acima dos 80 anos (1168) e mais baixa nos menores de 15 anos (590).

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