Observatório

13,5 % dos casos de violência no namoro inclui ameaças de morte

13,5 % dos casos de violência no namoro inclui ameaças de morte

"Contou o número de estaladas e gabou-se do que fez aos amigos". Foi desta forma que uma das 222 vítimas descreveu a sua experiência ao Observatório da Violência no Namoro (ObVN). Foram mais de duas as queixas recebidas por semana nos últimos dois anos. Em 13,5% dos casos, as vítimas foram alvo de ameaça de morte.

Mafalda Ferreira destaca do levantamento de situações que parte das denúncias recebidas pelo ObVN o facto de 78% dos casos não serem participados às autoridades. "Estamos diante de cifras negras, longe de traduzirem a realidade", explica a coordenadora do Programa Uni+2.0, da Associação Plano I, sediada no Porto.

A criminologista, a completar doutoramento na área forense na Faculdade de Medicina na Universidade do Porto, sublinha que 13,5% das vítimas foram ameaçadas de morte e que, em 11,7% das situações, estas correram mesmo risco de vida. "Intimidar a vítima para manter o controlo pode chegar a esse ponto", declara.

A tipologia de violência mais prevalente é a violência psicológica (87%), seguida de controlo (62,6%), violência física (55,9%), violência social (36,5%), "stalking", perseguição (31,5%) e da violência sexual (21,6%). Muitos destes comportamentos surgem em simultâneo.

Uma das vítimas contou que o namorado "falava sempre de maneira agressiva com ela em frente aos amigos dele". Outra "foi trancada em casa pelo agressor" e tinha todos os seus passos monitorizados, fosse no trabalho ou na vida familiar. Os episódios relatados combinam, na maior parte das vezes, injúrias, humilhação, sentimentos de desconfiança, violência psicológica, um ou outro episódio de violência física, ameaças à vida.

Em 62,6% dos casos, os agressores são ex-namorados das vítimas e em 26,1% das situações a violência envolveu um meio online. "O controlo e a perseguição recorrendo às redes sociais é frequente", explica. "Existe muitas vezes conhecimento das passwords, consentido ou não; e acontece muito o Instastories", basicamente, há uma vigilância cerrada do que se se expõe através do Instagram.

Foi também relatada a criação de perfis falsos nas redes sociais para poder visualizar as relações sociais da parceira ou parceiro. Neste pacote de queixas, 90,5% das vítimas são do sexo feminino e 93,5% dos agressores pertenciam ao sexo masculino e a média de idades é de 23 anos para vítimas e 24 para sujeitos agressivos.

A maior parte dos problemas sucede no período pós-separação, explica Mafalda Ferreira. "É neste período que há mais risco para a vida. O agressor não tem nada a perder porque está a perder o domínio".

Os crimes denunciados aconteceram sobretudo no Porto (41%), Lisboa (16,7%) e Braga (7,7%). Um valor que não é representativo mas que traduz a divulgação que o Observatório tem tido nestas cidades, sublinha Mafalda Ferreira.

A maior parte das queixas partiu de estudantes, 58,1%, mais exatamente, mas não foram um seu exclusivo. O Observatório da Violência no Namoro celebra esta terça-feira dois anos e tem sobretudo fins de investigação do fenómeno em Portugal.