Cavaco Silva

25 de Abril: Há um ano Cavaco Silva temia futuro do país

25 de Abril: Há um ano Cavaco Silva temia futuro do país

Um ano depois de alertar para as dúvidas quanto ao futuro do país e apenas duas semanas após o pedido de ajuda externa, Cavaco Silva faz segunda-feira o primeiro discurso do 25 de Abril do segundo mandato em Belém.

A 25 de Abril de 2010, na intervenção que encerrou a sessão solene da Assembleia da República que assinalou a comemoração do XXXVI aniversário da 'Revolução dos Cravos', Cavaco Silva passou duas mensagens essenciais, em jeito de alertas.

"Deixámos o império, abraçamos a democracia, escolhemos a Europa, alcançámos a moeda única, o Euro. Mas duvidamos de nós próprios. Os portugueses perguntam-se todos os dias: para onde é que estão a conduzir o país? Em nome de quê se fazem todos estes sacrifícios?", questionou, apontando o número de jovens que parte para o estrangeiro como a prova de que se "acumulam dúvidas quanto ao futuro do país".

Por outro lado, o chefe de Estado deixou também uma chamada de atenção para a persistência de desigualdades sociais e, sobretudo, de "situações de pobreza de exclusão que são indignas da memória dos que fizeram a revolução de Abril".

"A sensação de injustiça é tanto maior quanto, ao lado de situações de privação e de grandes dificuldades, deparamos quase todos os dias com casos de riqueza imerecida que nos chocam", disse, lembrando os rendimentos dos altos dirigentes de empresas.

Este ano a crise voltará a estar inevitavelmente presente no discurso do Presidente da República numa cerimónia inédita no Palácio de Belém, que juntará Cavaco Silva e os seus três antecessores no cargo eleitos pós-25 de Abril: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

A decisão de realizar uma cerimónia comemorativa no Palácio de Belém, com intervenções de Cavaco Silva e dos seus três antecessores, foi anunciada depois do cancelamento da tradicional sessão solene na Assembleia da República, devido à dissolução do Parlamento, na sequência da demissão do Governo.

Este será também a primeira grande intervenção do chefe de Estado depois do pedido oficial de ajuda externa de Portugal e, provavelmente, a última antes das eleições legislativas antecipadas de 5 de Junho.

Até agora, desde que tomou posse como Presidente da República, a 9 de Março de 2006, as intervenções de Cavaco Silva no 25 de Abril têm sempre marcado a actualidade política.

«Nesse ano, e tal como voltou a acontecer em 2010, um dos temas abordados pelo chefe de Estado foi as desigualdades, propondo um "compromisso cívico" alargado para o seu combate.

Em 2007, os jovens estiveram no centro do discurso, com o pedido do Presidente da República para que não se resignassem e apelos à união de esforços dos políticos a favor da "qualidade da democracia".

Nessa mesma intervenção, o Presidente sugeriu ainda que se repensasse o modelo de comemorações do 25 de Abril, questionando se não estariam a "converter-se num ritual que já diz pouco" aos cidadãos.

Já em 2008, Cavaco Silva falou sobre a "notória insatisfação" dos portugueses com o funcionamento da democracia, mostrando-se "impressionado" com a ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril e o seu significado.

Em 2009, ano de eleições europeias, legislativas e autárquicas, o chefe de Estado centrou a sua intervenção em dois temas: a crise e a participação cívica.

Nessa ocasião, Cavaco Silva defendeu no Parlamento que a crise que Portugal então atravessava não podia ser "iludida", alertando para a incerteza de que esse fosse "um momento meramente transitório" de recessão económica e falando em "tempos difíceis, muito difíceis".