Ambiente

60 jovens portugueses organizam greve às aulas pelo clima

60 jovens portugueses organizam greve às aulas pelo clima

Cerca de 60 jovens de diferentes pontos do país estão empenhados na organização da greve às aulas pelo clima marcada globalmente para 15 de março.

Nas duas semanas que levam a trocar mensagens e a ter reuniões online, via Instagram e Whatsapp, os alunos perceberam que a mensagem tem esbarrado no preconceito: "São uns baldas, querem é faltar às aulas". Refutam liminarmente a ideia. Só querem ser ouvidos acerca da crise do clima. O JN falou com três deles.

Em Lisboa, a manifestação está marcada para o Largo Camões e o objetivo é marchar até à Assembleia da República. Em Coimbra e Porto, a concentração vai decorrer em frente à câmara municipal. Hora: 10.30 horas. Iguais protestos estão previstos em muitas cidades mundo fora.

Os três fãs de Greta Thunberg, a jovem sueca autora do movimento"SchoolStrike4Climate", líder deste movimento global, não se tinham visto ao vivo até ao encontro informal com o JN. Foi a primeira vez que comunicaram longe dos ecrãs, face a face, mas conheciam-se bem. Não houve bloqueio inicial na interação. Estavam afinados nas respostas: "Exigimos uma resolução para esta crise (climática), queremos que seja prioridade governamental. É o nosso planeta, o nosso futuro que está a ser boicotado ".

Partilham o entusiasmo e o nervosismo. Atrair e mobilizar os membros das associações de estudantes tem sido a principal tarefa. São o melhor canal para chegar aos jovens, dizem. Estão ansiosos porque sonham ver milhares de estudantes na ruas de Lisboa, Coimbra e Porto, as três cidades onde decorrerá o protesto - à semelhança do que aconteceu há duas semanas cidade de Bélgica, onde 30 mil jovens se juntaram em três cidades para exigir medidas que travem as alterações climáticas, e em Inglaterra, na última sexta-feira, onde a experiência se repetiu em 60 cidades - mas é difícil prever o que vai acontecer, afirmam.

Na linha de desfazer alguns mitos sobre a greve às aulas, esclarecem que não aconselham os mais novos a faltar à escola. "Greve climática estudantil", designação assumida em Portugal, é protagonizado por estudantes do secundário e da universidade e é junto destes que a mobilização está a ser exercida. Na lista dos organizadores o número de alunos de escolas secundárias e universidades está a taco a taco, dividido a 50%.

João Zoio, 18 anos, estudante de engenharia biomédica, residente de Alvalade, Lisboa, foi o primeiro a aparecer na estação de Entrecampos, Lisboa. Margarida Marques, 16 anos, estudante 11.º ano, veio de comboio, de Setúbal, e é a que tem mais experiência em ativismo - faz trabalho regular na organização "O cantinho da Milu", que apoia animais de rua. Inês Tecedeiro, 21 anos, estudante de Antropologia, em Lisboa, natural de Palmela, junta-se a estes mais tarde.

Apressam-se a dizer que o movimento surgiu graças ao impulso de Matilde Alvim, de Palmela, que lançou o repto através do Instagram, na sequência das notícias que rodeavam a ação de Greta Thunberg, a jovem sueca que protesta pacificamente há mais de 25 semanas em frente do parlamento do seu país e que foi ouvida no Fórum Económico Mundial de Davos, onde esteve ao lado dos grandes líderes mundiais.

"Desengane-se quem achar que esta não é a maior ameaça à nossa existência", dizem. "Esta é a nossa maior crise existencial", sublinha em particular Joao Zoio.

Estão igualmente em sintonia na desconstrução da ideia de que são um grupo de pessoas com interesses partidários escondidos. "Somos apartidários". Individualmente também não se reconhecem e identificam com nenhum dos partidos. João Zoio foi analisar a idade dos deputados presentes no parlamento e descobriu que apenas 2,2% tem menos de 30 anos. Pergunta então: "Como é que nos podemos sentir representados? Eu não me sinto representado".

Este movimento nacional e internacional procura estar além dos interesses políticos, de que tanto desconfiam. "O problema são os interesses económicos que estão por trás de tudo". "Importa pôr de lado os interesses económicos de particulares e grandes corporações em prol da salvaguarda de boas condições de vida para as gerações futuras". Em oposição, "o ambiente toca a todos. E se continuamos assim, este planeta fica inabitável".

Os pais de Margarida Marques, a mais nova dos três, não aceitaram bem a ideia no início. "Faltar às aulas é um problema para os pais", diz. Entretanto, estão mais convencidos de que se trata de um objetivo em grande escala. Margarida está firme: "Também quero ter voz, poder fazer alguma coisa".

Inês Tecedeiro revela que junto dos estudantes universitários a mensagem em defesa do ambiente vai ganhando fãs e ativistas. "Hoje em dia", sintetiza, "temos excesso de informação sobre tudo e isso funciona como ruído na nossa cabeça e o efeito é apagar tudo". Na seleção dos temas que interessam aos jovens e sobre os quais estão à procura de informação está o ambiente, defende.

"A informação de imprensa que nos chega", diz ainda, "não me diz o que quero saber, ou não é suficiente para o que quero saber". Prefere ir à procura de informação e acredita que os jovens estão cada vez "mais interessados em assuntos que lhes interessam verdadeiramente".

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