Mário Soares

"Adeus, querido pai"

Terminou o funeral de Estado de Mário Soares, no cemitério dos Prazeres, onde vão ficar depositados os restos mortais do estadista.

As homenagens fúnebres começaram, esta terça-feira, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, com uma cerimónia de homenagem, que começou poucos minutos antes das 13 horas, quando a urna entrou nos claustros carregada a ombro por seis militares.

Coberto com a bandeira nacional e perante os mais de 500 convidados que permaneciam de pé, o caixão foi colocado no palco instalado no centro dos claustros.

Na hora da derradeira despedida, os filhos de Mário Soares prometeram serem "fiéis, respeitar e preservar o património" que o antigo presidente da República "deixou a todos os portugueses".

"Um homem livre", que "ajudou muito a abrir Portugal para um outro caminho" e que se afirmou como uma das maiores figuras de Portugal livre. E, com lágrimas contidas, João Soares afirmou: "Adeus, querido pai".

Foi Maria Barroso, mãe de João e Isabel Soares e companheira do antigo presidente da República durante 66 anos, que ditou o tom dos escassos e breves encontros familiares com Mário Soares, durante as várias vezes em que foi preso pela PIDE, deportado e até exilado. Nunca poderiam chorar em frente à policia militar, recordou João Soares, num discurso carregado de emoção, que encheu de memórias os Claustros do Mosteiro dos Jerónimos, no derradeiro adeus ao ex-chefe de Estado.

Numa dessas despedidas, quando Soares foi deportado para S. Tomé e Príncipe, João e Isabel não aguentaram e choraram. Nesta terça-feira, estiveram perto de o voltar a fazer, ao despedirem-se de um "homem livre" que, como João Soares recordou, amava o seu país e conhecia Portugal como ninguém, que lutou pela democracia e afirmou-se como uma das maiores figuras da história nacional.

"Procuraremos ser fiéis, respeitar e preservar o património único que o meu pai deixou a todos os portugueses", prometeu o ex-ministro da Cultura João Soares. "Honraremos a sua memória e manteremos viva a sua imagem", corroborou Isabel Soares, salientando que o "o pai partiu a lutar até ao fim".

A cerimónia, que arrancou com a interpretação do Hino Nacional pelo Coro e pela Orquestra do Teatro S. Carlos, ficou marcada pela voz do homem homenageado por todos, pelo político que ficará para sempre na história como o "pai da democracia". "Nestes claustros junta-se hoje o passado e o futuro de Portugal", ouviu-se, numa gravação do discurso de Mário Soares aquando da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à União Europeia, em 1985, naquele mesmo espaço: o Mosteiro dos Jerónimos.

Depois de uma gravação com dois poemas declamados pela falecida Maria Barroso, o primeiro-ministro elogiou o homem que lutou sempre "em nome da vida e da liberdade". "Acreditou sempre que Portugal era uma grande nação", afirmou António Costa, a partir da Índia, onde se encontra numa visita de Estado.

Recordando o extenso percurso político de Mário Soares, o também líder do PS, partido que o ex-chefe de Estado formou, lembrou precisamente que foi pelas mãos de Soares que Portugal aderiu à União Europeia, no monumento onde o país nesta terça-feira, o País se despede dele.

"Aqui reencontramo-nos com a sua vida e com a memória coletiva do que nunca quis que esquecemos: a nossa história", afirmou António Costa, sublinhando o "afeto e a gratidão comovida por tudo o que Mário Soares foi, fez e nos deixa".

Também o presidente da Assembleia da República falou no misto de "dor, admiração e gratidão" que sentia pela perda de um homem "que sempre se bateu por causas e políticas", que "tinha uma sintonia impressionante com o povo português" e "um gosto contagiante pela vida e pelo país". "Preferiu sempre a intervenção ao risco. Foi um grande português. Lutou até ao fim", concluiu Eduardo Ferro Rodrigues, numa cerimónia presenciada por mais de cinco centenas de convidados, entre os quais várias individualidades internacionais como os reis de Espanha, o presidente do Parlamento Europeu e o presidente do Brasil.

O presidente da República encerrou os discursos da cerimónia no Mosteiro dos Jerónimos, onde se cruzam o "humanismo e a portugalidade" e onde cada pedra conta a História de Portugal. Para Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares foi "iluminado pela coragem e pela liberdade" e deixou os portugueses todos "mobilizados para que não mais Portugal seja o meu remorso de O'Neill ou o exílio de Sophia". "Obrigada Mário Soares!", concluiu o chefe de Estado, fechando-se a cerimónia como se começou, com o Hino Nacional.

Largas centenas de deputados, funcionários e populares aplaudem em São Bento

O cortejo fúnebre do antigo chefe de Estado Mário Soares seguiu depois para a Assembleia da República, onde foi recebido com uma longa salva de palmas por parte de deputados, funcionários e cidadãos à passagem pelo parlamento e fundação com o seu nome.

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, vice-presidentes e secretários da Mesa do parlamento, deputados de todos os partidos, antigos tribunos e numerosos funcionários saudaram o também ex-primeiro-ministro e fundador do PS.

O armão militar onde seguiu o caixão do estadista rumou depois à sede nacional dos socialistas e, depois, para o cemitério dos Prazeres, puxado por cavalos, parou breves segundos no patamar intermédio da escadaria monumental da Assembleia da República e, novamente, junto a um dois prédios ocupados pela Fundação Mário Soares, com dezenas de funcionários à varanda.

A última paragem antes da chegada ao cemitério foi o Largo do Rato, sede nacional, sendo o cortejo composto pelas mais altas entidades e família de Mário Soares, que foram recebidos na praça João Bosco por anónimos que aplaudiram a chegada da urna, bem como por vários membros do Governo e pelo presidente da câmara de Lisboa.

Último adeus

O cortejo fúnebre de Mário Soares chegou às 15:50 ao cemitério dos Prazeres, em Lisboa, tendo sido recebido por honras fúnebres pelos militares dos três ramos das Forças Armadas em parada, com centenas de cidadãos a aplaudir.

Depois da chegada, ouviu-se a marcha fúnebre pela banda do Exército e a entrada da urna no cemitério dos Prazeres foi acompanhada por três salvas de tiros.

Antes da chegada do cortejo, ouviu-se o hino nacional.

Depois das cerimónias em frente à capela no cemitério dos Prazeres, durante as quais o Presidente da República entregou aos filhos a bandeira nacional que cobria a urna de Mário Soares e se ouviu a voz do antigo chefe de Estado, o cortejo passou ainda em frente ao jazigo de Jaime Cortesão.

Numa cerimónia mais reservada, a urna de Mário Soares entrou no jazigo da família, tendo-se ouvido muitas palmas dos presentes.

"A verdade não pertence em exclusivo a ninguém e não há nada que substitua a tolerância", ouviu-se pela voz de Soares, em 1986, no primeiro tempo das presidenciais daquele ano.

No cemitério foram muitos os anónimos que fizeram questão de estar presentes para um último adeus, levando alguns deles flores com as quais quiseram homenagear Mário Soares e a sua memória.

O armão que transportava a urna de Mário Soares e as mais altas entidades e família que integravam o cortejo fúnebre foram recebidos na praça João Bosco por vários membros do Governo e pelo presidente da câmara de Lisboa, Fernando Medina, tendo-se depois ouvido a marcha fúnebre pela banda do Exército e a entrada da urna no cemitério dos Prazeres sido acompanhada por três salvas de tiros.

Já dentro do cemitério, a urna foi levada até à frente da capela - que tinha numa das paredes a foto do histórico socialista a preto e branco e na outra uma tarja preta com a data de nascimento e de morte do antigo chefe de Estado - onde decorreram os últimos momentos das honras militares, cerimónia que começou com a voz de Mário Soares.

Até ao jazigo de família onde Mário Soares ficou sepultado seguiram sempre os filhos, netos e familiares, que estiveram acompanhados pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pelo Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, por vários membros do Governo e muitas caras do espetro político, com especial ênfase nos socialistas.

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