Conservação

Ambientalistas compram terra para a devolver à natureza

Ambientalistas compram terra para a devolver à natureza

Quercus lançou campanha de "crowdfunding" para comprar terreno no parque do Tejo Internacional e devolvê-la à natureza. Não é a única. No rio Coa, Associação Transumância e Natureza está a consolidar a reserva Faia Brava, que já soma uma área superior a mil campos de futebol.

As duas associações seguem métodos semelhantes: angariam dinheiro para comprar terrenos e devolvê-los ao seu estado silvestre. Na reserva da Faia Brava, que abrange as duas margens do rio Côa, vivem vacas maronesas e garranos (cavalos) selvagens, abutres britango (ou do Egito) ou águia perdiceiras (ou de Bonelli). Um safari de jipe ou uma caminhada por algum dos vários percursos assinalados permitem ver estes e outros animais a viver em estado silvestre.

Pedro Prata, diretor da Associação Transumância e Natureza (ATN), está agora a angariar fundos junto dos associados para expandir e consolidar o espaço, uma vez que ainda existem pequenas parcelas privadas. Não é nada a que não esteja habituado, desde o ano 2000. "Esta é uma região de minifúndio, tivemos de fazer centenas de negócios para somar 1078 hectares contíguos". São 1078 campos de futebol, a que se juntam outros 95 de terrenos detidos por outros privados, mas geridos como se pertencessem à Faia Brava.

"Fazemos um trabalho de recuperação e manutenção do ecossistema e ajudamos a proteger espécies ameaçadas", adiantou Pedro Prata. Não só na Faia Brava, mas também em Freixo de Espada à Cinta: uma propriedade de 220 hectares no Douro Internacional alberga uma zona de floresta mediterrânica e pinturas do tempo paleolítico; e em Porto de São Miguel, entre Castelo Mendo e Almeida, encontram-se zonas de aluvião do Coa e uma manada de zebros, cavalos autóctones da Península Ibérica, por exemplo.

A ATN está também a finalizar duas outras compras: uma área no Rio Águeda, junto a Espanha, e uma escarpa do Douro, em Freixo de Espada à Cinta, onde vive uma mancha florestal de lódão.

Campanha já angariou perto de mil euros

É também com uma expansão em vista que a Quercus quer aumentar os 430 hectares que já possui dentro do parque do Tejo Internacional, em Castelo Branco. Samuel Infante, dirigente da associação ambientalista, adiantou à Agência Lusa que está em curso uma campanha de "crowdfunding" no site PPL, através da qual é possível fazer donativos para comprar 80 hectares. A campanha só acaba a 17 de fevereiro e pede 20 mil euros. Nos primeiros quatro dias, já mais de 40 mecenas lhe prometeram perto de mil euros.

Uma das principais razões que leva a Quercus a comprar o terreno é uma linha de 800 metros de água, da Ribeira do Marmelal, onde se encontra o cágado-de-carapaça-estriada, uma das duas espécies de cágados existentes em Portugal, ou a boga portuguesa, um peixe de rio. A área vai somar-se à reserva de Monte Barata, onde é possível ver cegonhas pretas, abutres pretos, águias de Bonelli ou imperiais, entre outros, explicou Samuel Infante ao JN.

Esta não é a única reserva natural propriedade da Quercus. Há 16 espalhadas pelo país, como a do Alvão, onde se protege uma borboleta azul, ou de Tomar, em cujas grutas vivem morcegos. São pequenas parcelas, de um ou dois hectares, compradas com a ajuda de cidadãos ou empresas, adiantou Samuel Infante.

O JN sabe que também a Associação Montis tem um projeto de compra de terrenos para a criação de zonas de conservação da natureza. Neste momento, gere 155 hectares nas serras em torno dos rios Vouga e Paiva, mas não foi possível chegar à fala com os responsáveis durante a tarde desta segunda-feira.