Educação

Os invisíveis que ganham vida no Arco Maior

É uma escola alternativa à tradicional. Chama-se Arco Maior porque "todos cabem, até os mais atravessados", diz o promotor, Joaquim Azevedo. Há quatro anos que é a última rede para jovens que todos os outros deixaram cair.

Vivem num limbo, sem escola nem trabalho, tantas vezes sem família ou apoio social. São números nas estatísticas do abandono escolar, que no ano passado inverteu uma longa tendência de descida e chegou aos 14%, e engrossam a lista de 300 mil "nem-nem" (não estudam ou trabalham). Fazem então o quê, estes jovens, afastados da escola sem o 9.º ano, às vezes sem sequer o 6.º?

Muitos destes invisíveis estão a caminho da delinquência ou da exclusão, até porque não há soluções específicas para esta população, disse Joaquim Azevedo, um dos maiores especialistas de Educação do país. Para colmatar a falha, há quatro anos, abriu no Porto uma escola alternativa a que chamou Arco Maior, para que "todos caibam, até os atravessados".

É lá que estudam cerca de 80 jovens, "uma gota no oceano". A Joaquim Azevedo, nem a Educação nem a Segurança Social dizem quantos jovens se perderam da escola. "Todos lavam as mãos". Sabe, só, que a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) sinalizou 2100 menores, no Porto, ou 6% da população escolar.

O Arco Maior é uma última rede, depois de falhado o combate ao insucesso e ao abandono escolar. Os três polos - dois no Porto e um em Gaia, cedidos pelas misericórdias - têm horários, matéria, regras rígidas. O acordo com o Ministério da Educação diz que os professores são destacados pelas escolas com as quais é assinado um protocolo e onde os jovens estão inscritos. Mas é no Arco Maior que os jovens passam o dia e o conhecimento é transmitido por tarefas concretas, não em ambiente tradicional, de sala de aula.

Antero Afonso, um dos coordenadores do polo 1, dá o exemplo do restaurante pedagógico, que os próprios alunos recuperaram e onde são servidos almoços temáticos. São os jovens quem escolhe o tema, que é trabalhado em cada aula. Depois, cozinham e servem os clientes, fazem orçamentos e acertam contas, escrevem as ementas em português e inglês.

Meiguice, ternura, amor, tempo

Não são palavras usuais na burocracia da Educação, mas foram repetidas nas visitas do JN ao Arco Maior. Os jovens dizem que é por causa do trato com os professores que vão às aulas e seguem as regras - uns mais do que outros, umas vezes mais do que outras.

E é assim que os professores cativam jovens problemáticos. Para Antero Afonso, cada aluno tem capacidades e dificuldades próprias e esta diversidade é trabalhada, "com todo o tempo que for preciso". Apesar disso, reconhece que nem todos são talhados para trabalhar com estes jovens: "O essencial é ser professor, olhar para um jovem e encontrar com ele um caminho para a aprendizagem".

A intimidade entre alunos e docentes, contudo, não significa que tudo sempre corra bem. Um sorriso amacia o dedo que uma coordenadora aponta "àquele diabo que me deu tantos cabelos brancos". Mas leva na mão as chaves de cada porta, todas trancadas. Esta é, afinal, a última rede para jovens a quem tudo o resto falhou.

Histórias na primeira pessoa

Como era a sua vida, o que mudou, como correm os estudos no Arco Maior, os planos de futuro. É na primeira pessoa que cada um conta a sua história. Muitas outras ficaram por contar

Quer um futuro na restauração ou com idosos

Ana Magalhães

A franqueza do sorriso desarma logo, mas a melancolia do olhar deixa antever uma vida difícil, apesar dos seus 16 anos. Há um ano, Ana quis sair de casa e viver no lar Rosa Santos, no Porto. Lá, tem um quarto, ajuda nas tarefas domésticas, sente-se segura.

Em casa, o padrasto "é porreiro", mas a relação com a mãe levou-a a abandonar a família e a escola de Valadares, Gaia. "Passava os dias na escola, era muito melhor do que estar em casa". Mas daí a prestar atenção às aulas ia uma grande diferença.

A entrada no Arco Maior foi quase uma coincidência. Era para o seu irmão mais velho que a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens procurava um curso, mas foi Ana quem aproveitou para acabar o 9.º. O canudo chegará já em maio. Depois virá um estágio e o 12.º ano, na vertente de cozinha. É esse o futuro que imagina.

Ou a tratar de idosos. Lá em casa, tudo corria melhor até o avô ter morrido.

"Vou portar-me bem, quero ir trabalhar em Paris"

Lúcia Teixeira

Lúcia, 17 anos, sabe de cor o dia em que entrou no Arco: fez dia 4 de janeiro um ano. "Os professores foram meigos, os colegas também, adaptei-me bem". Até então, andava no Leonardo Coimbra, onde deve ter batido algum recorde de retenções: dois chumbos no 5.º ano, três no 6.º. "Não ia para a escola, ou ia e fazia asneiras". Juntava-se o grupo de amigos e "era para a desgraça". Na sala, por exemplo, eram eles quem mandava. No recreio, portavam-se bem, "o cigarrinho, só isso", ajudava. A mãe ficava triste, ainda hoje fica. "Só quer o meu bem".

O penúltimo chumbo foi por faltas. "O último foi porque tive de ir para fora, por razões pessoais, a ver com o tribunal". Eram as faltas, a agressividade com os professores. "Sou muito impulsiva, expludo, mas depois acalmo". Esteve fora um ano e sete meses, até o tribunal a enviar para o Arco Maior para acabar o 9.º ano.

Lúcia sabe que tem de se "portar bem" e quer continuar, apesar de nem tudo correr sempre bem. "Tive um stress com um prof. de Cidadania, disse coisas que não devia ter dito, fui para casa dois dias". Usou-os para pensar. "Ele estava errado, mas eu errei por insultá-lo". Depois de acabar 9.º, planeia ir para Paris, onde tem família e amigos e, acredita, trabalho na restauração.

Diploma do 9.º ano será entregue ainda este mês

Diogo Silva

"Cresci, cresci muito no Arco, aprendi muita coisa." Mais do que na Augusto Gil, de onde Diogo saiu, no 7.º ano. Já estava visto que a escola tradicional não lhe servia. "Faltava muito" e, quando ia, não prestava grande atenção às aulas. "Não tinha empenho, não me despertava a atenção." Ainda por cima, era sempre muito mais velho do que os colegas de turma.

No ano passado, a CPCJ falou-lhe de um projeto alternativo, onde podia continuar a estudar, mas num modelo radicalmente diferente do seguido pela escola tradicional. A transição foi feita há pouco mais de um ano e hoje, com 19 de idade, está a dias de ter o canudo que lhe dará o 9.º ano.

Um cenário inimaginável, na escola tradicional, mas possível no Arco Maior. Diogo não tem dificuldade em encontrar as diferenças: "Aqui os professores têm muito mais à vontade connosco e nós com eles, percebem-nos." E descobriu o gosto pela cozinha, pela restauração. Com o canudo quase na mão, já está à procura de trabalho, para ajudar a mãe.

Se encontrar emprego, tentará conciliar com aulas à noite, para acabar o 12.º ano, numa escola tradicional, diz, hesitante. "Depois do Arco, regressar à outra escola, onde já não tive sucesso... Não sei. Esse é o meu maior desafio", reconhece.

Fazer o 9.º ano, ter um salário e comprar carro

Francisco Barbosa

Hoje Francisco está de parabéns: faz 17 anos. Vive em Gaia, mas é no polo 2 do Arco Maior, no Porto, que se esforça por terminar o 9.º ano. Na Soares dos Reis, de Gaia, os desastres sucediam-se sem que percebesse bem porquê. "Sou assim desde criança, num minuto está tudo bem e, de repente, tenho um flash".

A medicação que agora toma ajuda, mas para trás ficaram anos de faltas às aulas e indisciplina que lhe mereceram um ano passado no internato dos Carvalhos, em Gaia. Também aí não se adaptou. "Tinha de estar sempre lá, os horários eram rígidos". Chumbou outra vez.

O Arco Maior surgiu como alternativa e agora é com um ar de enorme autoconfiança que garante que vai fazer o 9.º ano. E depois? "Quero ir trabalhar, de preferência na restauração, ganhar o salário mínimo, ter um carro".

A ambição poderia ser maior, se continuasse até ao 12.º ano, mas Francisco não se imagina numa escola regular. "Já tive essa experiência, não vou voltar", garante.

Entrevista

"Temos de poder dar equivalência ao 12.º no próximo ano letivo"

Joaquim Azevedo, promotor do projeto

Por que razão sentiu necessidade de criar este projeto?

No Porto e em Gaia existem mesmo muitos jovens que, todos os anos, caem das malhas de proteção social. Nem as escolas nem as comissões de Proteção de Crianças e Jovens têm estratégias que os acompanhem, orientem, ajudem a construir um projeto para a vida. Rejeitam as escolas - e as escolas também os rejeitam. E são centenas, centenas! A nossa resposta é mínima, a perto de 80. E há uma necessidade brutal! Estes adolescentes não estão na escola, não estão empregados, não estão em formação, são invisíveis. O Porto está na moda e ninguém olha para eles, a não ser quando começam a cometer atos de delinquência.

E caem nas malhas da Justiça?

Sim, e era desnecessário. Estes jovens são tão bons quanto quaisquer outros e têm uma capacidade espetacular de se reinventar. Às vezes demora, é precisa muita paciência, amor, ternura, muita dedicação e exigência, mas consegue-se. Não os deixamos desistir. Se faltam, telefonamos todos os dias. Se faltam meio ano, continuamos atrás deles e alguns já regressaram. É um trabalho necessário: é a vida deles que está em jogo, muitas vezes completamente destruída, e é a nossa vida em comum, também eles infernizam a vida na cidade. Não faz sentido, do ponto de vista humano, quando se podem criar outras condições, além do modelo hegemónico escolar.

O Arco Maior pode conferir o 6.º e o 9.º anos. Como correm as negociações com o Ministério da Educação para dar o 12.º ano?

Estamos a negociar, era já para ter aberto no ano passado, mas não foi possível. Estamos a fazer muita pressão para que abra, temos muitos adolescentes a acabar o 9.º ano e era fundamental que tivessem o 12.º, é uma ferramenta cada vez mais fundamental. E eles querem. Muitos querem dar esse passo seguinte, mas não há nada, nenhuma escola na cidade que lhes dê essa oportunidade. Nem o ensino profissional - eles não aguentam seis horas por dia metidos numa sala de aula ou oficina. Temos de conseguir dar o 12.º no próximo ano letivo.