Lagos

Arqueólogos detetam réstia de humanidade na violência da escravatura portuguesa

Arqueólogos detetam réstia de humanidade na violência da escravatura portuguesa

Ossadas encontradas em Lagos, em 2009, abriram uma janela sobre a brutalidade da escravatura, no início da aventura marítima portuguesa, há mais de 500 anos. Nos corpos das crianças, a investigação detetou uma réstia de humanidade.

As ossadas de 158 africanos encontradas em 2009, durante uma escavação, em Lagos, no Algarve, foram analisadas por uma equipa de arqueólogos portugueses, liderada por Maria Teresa Ferreira, docente da Universidade de Coimbra.

Os resultados da pesquisa, publicada agora no Jornal Internacional de Osteoarqueologia, comprovam a dureza e a desumanidade da escravatura portuguesa, nos primórdios da aventura marítima lusitana, no século XV.

As ossadas são de homens, mulheres e crianças. A investigação, apoiada pelo Archaeological Institute of America e pela Fundação Gerda Henkel, apurou que os corpos foram deixados no depósito de lixo daquela cidade, fora das muralhas, e que muitos sofreram lesões degenerativas.

Os especialistas analisaram 88 ossadas e encontraram mais mulheres (56,31%) do que homens (29,13%). Não foi possível determinar o sexo dos restantes. Na maioria dos casos (40%), a idade provável da morte foi estabelecida entre os 30 e os 40 anos. Cerca de 32% morreram entre os 20 e os 30 anos, e apenas 6,59% entraram nos "entas".

A equipa de investigadores, que incluiu, ainda, Catarina Coelho, João de Oliveira Coelho, David Navega, Sofia N. Wasterlaina e Ana Rufino, encontrou ainda ossadas de 31 "não adultos". A análise aos restos mortais detetou alterações nas dentições e um atraso no crescimento, consequência das más condições em que viviam.

Entre a barbárie da exploração esclavagista, os arqueólogos da empresa Dryas Arqueologia Lda, encontraram uma centelha de humanidade nas ossadas na zona da Gafaria de Lagos: 66,7% das crianças "parecem ter sido enterradas com mais cuidado do que os adultos", entre os quais, a esmagadora maioria, tinha sido depositada na lixeira sem a habitual orientação cristã comum à época, com a cabeça na direção do Oeste.

Naquela época, há mais de 500 anos, só as pessoas batizadas podiam ser enterradas dentro da cidade. "Os escravos, evidentemente, não eram, de modo que foram deixados nos depósitos de lixo, como poderia acontecer, por exemplo, com os animais", disse Maria Teresa Ferreira ao "El Pais".

Entre os corpos analisados, as ossadas de quatro mulheres, um homem e um menor foram enterrados amarrados. Uma prova clara da brutalidade da vida dos escravos, destratados até na hora da morte.

As primeiras embarcações portuguesas chegaram à costa do Senegal em 1444, regressando a Lagos com mercadorias e pessoas, escravos.

Calcula-se que entre 1444 e 1470 entravam em Portugal cerca de mil africanos escravizados por ano. Número que duplicou nas décadas seguintes, começando a diminuir a partir de 1530.

Em 1512, o rei D. Manuel II atribuiu a Lisboa a exclusividade do tráfico de escravos. Não se sabe quantos africanos escravizados entraram em Portugal nesses séculos, porque os arquivos se perderam durante o terramoto de Lisboa, em 1755.

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