"Aldeias Seguras"

Bombeiros acusam Proteção Civil de "negligência"

Bombeiros acusam Proteção Civil de "negligência"

O presidente da Liga dos Bombeiros classificou de "tremenda negligência e irresponsabilidade" a entrega de materiais inflamáveis no âmbito do programa "Aldeias Seguras".

Jaime Marta Soares defendeu ainda, em declarações à agência Lusa, a instauração de "um inquérito rigoroso" para apurar responsabilidades.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) comentava a notícia avançada esta sexta-feira pelo JN de que 70 mil golas antifumo fabricadas com material inflamável e sem tratamento anticarbonização, que custaram 125 mil euros, foram entregues pela Proteção Civil no âmbito dos programas "Aldeia Segura" e "Pessoas Seguras".

"Só posso afirmar o meu profundo lamento por uma atitude dessas que é demonstrativa de uma tremenda negligência e irresponsabilidade", disse Jaime Soares, sustentando: "quando se faz um kit para prevenção e defesa das populações (...) e se entrega um equipamento que pode levar à morte isso é profundamente criticável e inaceitável".

A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) esclareceu que os materiais distribuídos não são de combate a incêndios nem de proteção individual, mas de sensibilização de boas-práticas.

Para Jaime Marta Soares, este esclarecimento "é muito mau" e defende que a "autoridade tem de assumir esse erro" e "pedir desculpa pelo erro", porque "as pessoas entenderão que ninguém o fez intencionalmente".

Em declarações à RTP, a segunda comandante nacional da ANEPC, Patrícia Gaspar, acrescentou que as golas antifumo destinam-se apenas a movimentos rápidos de retirada de pessoas em caso de incêndio e que a sua segurança não está em causa.

"Quero passar uma mensagem de tranquilidade junto das aldeias, é que estes equipamentos servem sobretudo para uma proteção temporária, num movimento que se espera que seja rápido, e não nunca para enfrentar um incêndio florestal", afirmou.

Ministro deve pedir inquérito

Para o presidente da LBP, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, deve pedir a instalação de um inquérito para apurar "quem foi o responsável" e determinar "um processo disciplinar" para que sirva de "exemplo para o futuro", porque quem trata destas questões de Proteção Civil "têm de ser pessoas muito credenciadas, muito competentes".

O programa "Aldeia Segura" está a ser implementado desde 2018 em vários municípios e soma 1507 oficiais de segurança local - a quem compete encaminhar as populações para os locais de abrigo.

Dois oficiais de segurança do distrito de Castelo Branco disseram ao JN que "a gola aquece muito" e "cheira a cola". Estes oficiais queixaram-se também do colete refletor, também feito em poliéster.

Um representante da Foxtrot Aventura, empresa de Fafe, no distrito de Braga, a quem a ANEPC comprou 15 mil "kits" e 70 mil golas em junho de 2018 disse que considerava tratar-se "merchandising" e que a entidade não referiu que os equipamentos "seriam usados em cenários que envolvem fogo".

"Se assim fosse, as golas seriam de outro material e com tratamento para suportar esses cenários [de fogo] (...) Juro que achei que isto seria usado em ações de merchandising', garantiu Ricardo Peixoto ao JN.