Saúde

Bronquiolites provocam 20% dos internamentos de bebés até aos 2 anos

Bronquiolites provocam 20% dos internamentos de bebés até aos 2 anos

Taxa de hospitalização é mais elevada nas regiões Norte e Centro por causa do frio. Investigação deteta excesso de exames e prescrição desadequada.

Há cada vez mais bebés até aos dois anos internados por bronquiolite aguda e é no Norte e no Centro que a patologia pediátrica é mais frequente. Esta infeção respiratória, que provoca grande ansiedade junto dos pais, é responsável por um quinto do total de internamentos de crianças até aos 24 meses.

Um estudo realizado por investigadores do Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) analisou os registos de internamentos por bronquiolite aguda, entre 2000 e 2015, em todos os hospitais públicos. Naquele período, houve 80 491 internamentos, o que dá uma média de cinco mil por ano só no Serviço Nacional de Saúde. Os episódios nos hospitais privados não foram contabilizados. "O número seria provavelmente maior", admite a pediatra Inês Azevedo, uma das autoras da investigação publicada na revista científica "Pulmonology".

O estudo, a que o JN teve acesso, permite observar um aumento da taxa de hospitalizações por bronquiolite aguda em geral e mais acentuada nos bebés mais pequenos. Até aos 24 meses, a taxa de internamento aumentou 1,6% ao ano, mas nos bebés com menos de três meses cresceu a um ritmo superior: 3,8%.

Os resultados poderão espelhar a introdução de normas de orientação clínica (NOC) para esta patologia, que recomendam o internamento dos bebés com menos de dois meses, realça Inês Azevedo. Apesar do número absoluto ter diminuído, a taxa de internamentos aumentou, o que se explica pela queda da natalidade nos últimos anos.

Doença típica de inverno

A investigação analisa os casos por região e sobressai que no Norte e Centro há mais crianças com a doença - 26 e 27 internamentos por mil crianças com menos de dois anos, respetivamente. Lisboa e Alentejo tiveram 22 episódios por mil crianças, enquanto o Algarve ficou-se pelos 19. "Tem a ver com o frio. A bronquiolite é tipicamente uma doença de inverno e do frio", explica a pediatra, apontando o final de dezembro e o mês de janeiro como a época crítica. Manuel Gonçalves-Pinho, também autor do estudo, nota que, nas regiões com invernos mais frios, "as pessoas têm tendência para estar mais tempo em espaços fechados", o que aumenta o risco de contágio.

O estudo conclui ainda que houve melhorias nos últimos anos no diagnóstico e tratamento das bronquiolites, mas detetou prescrição excessiva de exames de diagnóstico, nomeadamente radiografias ao tórax e análises clínicas, bem como de antibióticos, corticoides e broncodilatadores. "Não quer dizer que não sejam necessários em alguns casos, mas na maioria das situações não são", refere Inês Azevedo, na esperança de que o estudo sirva também de alerta para as decisões médicas.

"Rapazes mais frágeis"

Do total de hospitalizações em 16 anos, 59,7% eram meninos e 40,3% eram meninas. Porquê? "Os rapazes são mais frágeis no primeiro ano de idade e a bronquiolite é mais frequente no sexo masculino", explica a pediatra Inês Azevedo.

Sinais de alerta

Os sintomas iniciais são corrimento e obstrução nasal e tosse seca, de agravamento progressivo. A respiração pode tornar-se ruidosa e sibilante (pieira e gatinhos) e alguns bebés dão sinais de esforço respiratório. Os pais devem ter atenção à respiração mais rápida, ofegante e aos sinais de esforço (balanceio da cabeça, gemido, covinhas no pescoço, costelas marcadas) bem como às pausas respiratórias, alerta a pediatra. A doença pode ser fatal, mas em Portugal a taxa de mortalidade é muito baixa (0,1%).

Vírus responsável

O vírus sincicial respiratório é um dos principais responsáveis pelas bronquiolites agudas nas crianças (40% dos casos ou mais porque nem sempre são feitos testes para identificar o vírus).

Hospitalizações custam em média 4 milhões por ano

As hospitalizações por bronquiolites agudas custam, em média, quatro milhões de euros por ano (900 euros em média por internamento). Nos 16 anos em estudo (2000-2015), representaram uma despesa total de 72,4 milhões de euros. "É um impacto muito grande", salienta o médico e investigador do Cintesis, Manuel Gonçalves-Pinho. Os custos indiretos com esta doença, nomeadamente a ausência ao trabalho do pai ou da mãe, entre outros, não foram quantificados.

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