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Caçámos mais de 2,2 milhões de animais

Caçámos mais de 2,2 milhões de animais

Portugal teve 2,251 milhões de animais de diversas espécies caçados na época venatória de 2016/2017, a última sobre a qual o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem os dados mais atualizados sobre os abates. Em média, cada caçador, dos mais de 120 mil que se licenciaram para a prática ancestral naquele período, abateu 542 animais.

Quem não conhece o universo da caça pode considerar tais números exagerados. Todavia, os caçadores argumentam que nunca se mataram tão poucos animais em tantos anos de atividade. Outra visão têm os defensores dos animais, que apelam ao Governo para ponha um ponto final na "atividade predatória do ser humano" na natureza nacional.

A maioria das espécies abatidas é de pequeno porte. Mas, a passos largos, está a ganhar terreno a quantidade de caça grossa, como o javali ou o veado. É, aliás, com estas últimas espécies que os praticantes tentam fazer face a uma diminuição das outras, que eram mais abatidas no passado, como coelhos-bravos ou lebres.

Entre junho de 2016 e maio de 2017, havia 4901 zonas de caça associativas, turísticas e municipais, que corresponderam a 6,9 milhões de hectares. Entretanto, esses números aumentaram na atual época venatória, passando para 4977 zonas e mais de sete milhões de hectares. E foi ali, há um ano, que foram abatidos 2251 872 exemplares de animais das mais variadíssimas espécies cinegéticas.

1,2 milhões de tordos em três meses

Os números de algumas espécies são consideráveis, perante uma análise mais filtrada da época venatória. Isto porque, além de o Estado estabelecer um calendário de um ano para a atividade, são ainda balizados curtos períodos para a caça de grupos de espécies.

Ou seja, a rola pode ser caçada em agosto e setembro. Se nesta época em análise foram abatidos 75805 exemplares desta espécie, a média mensal é fácil de calcular: quase 38 mil por mês, mais de 1260 por dia. Igual desdobramento pode ser feito em relação aos 1,289 milhão de tordos, caçados entre novembro e fevereiro: 300 mil por mês. Quanto aos coelhos-bravos, foram abatidos 207 106, quase 52 mil/mês.

Ao JN, Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça (Fencaça), relativizou estes números, por terem sofrido uma queda considerável nos últimos 15 a 20 anos, devido a diversos fatores. "Este é o retrato de perdas para todos. Houve enormes efeitos negativos sofridos pelo setor, começando no número de caçadores, a reboque, desde logo, de vários procedimentos administrativos impostos pelo Estado", apontou, sobre os números fornecidos pelo ICNF ao Parlamento e aos quais o JN acedeu.

"Com o abandono das áreas rurais e o aumento das doenças que afetam diversas espécies, passámos de uma possibilidade de caça de dez mil coelhos por mês para os 50 ou 60 atuais, por exemplo. A caça é uma atividade necessária para o controlo das espécies e nós somos os únicos a fazer esse trabalho", defende o dirigente, que frisa a subida dos valores da caça grossa "como compensação".

A ex-provedora dos Animais de Lisboa, Inês Sousa Real, contesta a tese e critica o "número chocante em causa". "O Governo não tem o censo de animais vivos. Por isso, concorde-se ou não com a atividade, a argumentação do controlo das populações de espécies é errada, porque não existem valores cinegéticos hoje", refere a também dirigente do PAN, que pede "mão nesta impunidade", porque "o homem já não precisa da caça para sobreviver".

Custos fazem da caça um luxo e afastam os mais jovens

Entre 2013 e 2018, houve uma diminuição de 30 mil caçadores. Esta reta descendente vem de há muitos anos, já que o país chegou a ter, em meados dos anos de 1990, mais de 600 mil pessoas dedicadas à caça. As causas para tão acentuada queda devem-se, segundo o setor, às regras cada vez mais apertadas, que se traduzem num acréscimo da despesa para esta atividade, vista cada vez mais como de luxo, devido aos elevados custos.

No início do verão, estavam registados no Instituto Nacional de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) 250 mil caçadores, adiantam as Estatísticas Agrícolas, na sua edição de 2018. São menos 4109 que no ano anterior. Contudo, as licenças de caça emitidas têm estado a aumentar há três anos consecutivos, depois de uma queda paulatina nos anos de crise financeira. Na época venatória de 2017/2018, que terminou em junho, existiram 124 499 licenças - mais 2,4% do que em 2017.

Licenças e seguros

A diferença entre os números das cartas de caçador e das licenças de caça é fácil de compreender: um caçador pode ter a carta mas não querer caçar em determinada época venatória. Daí que não trate de uma licença, que lhe permita caçar, ainda que apenas num determinado território.

A licença tem custos de renovação, a que se somam outras despesas, como os seguros exigidos para a caça, as licenças dos cães que acompanham o praticante, a licença de uso e porte de arma e os livretes das armas. "São esses custos que afastam os mais jovens. É impensável alguém no começo de vida conseguir despender valores tão elevados. Por isso, quem hoje entra nesta atividade são pessoas acima dos 60 anos, muitos médicos ou engenheiros", explicou ao JN Jacinto Amaro, da Fencaça.

Assim é. Em 2018, só houve um aumento de caçadores registados acima dos 61 anos. Todos os outros escalões etários desceram.

Menos armas vendidas

Para quem vive do setor, como os armeiros, são horas de fazer contas ao negócio. Em 18 anos, os vendedores de armas reduziram-se a um quarto dos que existiam e são hoje cerca de 300, de acordo com a associação de armeiros.

"Sentimos uma queda abrupta nas vendas. Hoje, pouco mais se comercializa do que munições - balas e cartuchos. Ser armeiro nos dias que correm, perante a crise que afeta os nossos principais clientes, é um negócio ruinoso", garantiu João Bravo Júnior, empresário e dirigente da Associação de Armeiros.

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