O Jogo ao Vivo

Pesquisa

Cientistas analisam compostos de parasitas que podem combater cancro

Cientistas analisam compostos de parasitas que podem combater cancro

Cientistas do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde estão a analisar a hipótese de alguns compostos de parasitas presentes em alimentos serem uma "ferramenta terapêutica contra o cancro".

"Neste momento só temos a evidência de que estes parasitas matam células em cultura. E, agora, vamos ter de estudar as vias pelas quais isto acontece, tentar usar extratos do parasita para avaliar a toxicidade e saber se realmente podem ser usados ou não como uma possível via terapêutica", disse hoje Mónica Botelho, cientista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

Mónica Botelho, que falava à agência Lusa a propósito da compilação de artigos recentemente publicada na revista 'Frontiers' sobre a relação entre os parasitas e o cancro, salientou que apesar de esta ser "uma investigação ainda embrionária" já permitiu provar que o parasita 'Fascíola hepática' "consegue inibir o crescimento de células do cancro in vitro".

Além deste parasita, presente em alimentos crus como o agrião, alguns investigadores estrangeiros estão também a analisar o "potencial" de outro parasita, o 'Echinococcus granulosus', que causa o quisto hidático.

"Não podemos dizer às pessoas para comer alimentos infetados com fascíola, porque isto é um parasita e causa doença. O que estamos a tentar fazer é usar componentes do parasita no sentido de ter mais uma ferramenta terapêutica do cancro", referiu.

À Lusa, Mónica Botelho, também cientista no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), adiantou que os nove artigos publicados na revista científica 'Frontiers', que envolveram 37 especialistas da área, permitiram também salientar como três parasitas helmintas - o 'Shistosoma heamatobium', o 'Opisthorchis vivernini' e o 'Clonorchis sinensis' - são "agentes que causam o cancro".

De acordo com a investigadora, o parasita 'Schistosoma heamatobium', endémico nas zonas de água doce da África e do Médio Oriente, está "associado ao cancro da bexiga" e os restantes parasitas, endémicos na Ásia como é exemplo a Tailândia, estão associados a um cancro "particular" do fígado, o Colangiocarcinoma (cancro dos canais biliares).

Tendo em conta os avanços científicos dados, Mónica Botelho acredita que é fundamental "perceber" como é que estes parasitas causam, promovem e dificultam o aparecimento de tumores nos seres humanos e, consequentemente, "desenvolver novas estratégias" para controlar, tratar e prevenir a malignidade associada à infeção.

"Só conseguimos controlar a infeção, impedindo e prevenindo as mesmas, mas, é muito difícil porque este é um problema cultural. Em África é cultural o contacto com a água, desde crianças a nadar nos lagos e rios às mulheres a lavarem a roupa, por isso, a infeção ocorre desde idade muito jovem. Por sua vez, na Ásia, o peixe cru da família das Carpas que contém o parasita é uma iguaria", referiu.

A investigadora acredita por isso que só através da implementação de "estratégias de informação e educação" junto das populações locais será possível evitar as infeções, acrescentando que simultaneamente é necessário "o tratamento das águas".

"Se houver água tratada, este problema não se põe, mas isto continua a ser um cenário que não se vê e as populações continuam a depender da água dos lagos e dos rios. Enquanto o problema da água não for tratado, não há nada a fazer. Isto é um problema que se perpetua", concluiu.