Relatório

Escolas do norte de novo apanhadas a inflacionar notas

Escolas do norte de novo apanhadas a inflacionar notas

Entre 74 escolas de novo apanhadas a inflacionar notas, 44 são no norte e 26 destas são colégios.

Dos 80 estabelecimentos que cortam nas classificações internas dos alunos, quase metade (39) são em Lisboa e a maioria (34) são públicas. Duas realidades que persistem apesar dos inquéritos realizados na anterior legislatura.

Os dados que voltam a confirmar o "desalinhamento" entre notas de exames e classificações internas constam do relatório Estado da Educação 2016, divulgado esta terça-feira pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), com base em relatório do Júri Nacional de Exames do ano passado.

Chumba-se muito e cedo demais

O relatório, que vai ser debatido pelos conselheiros no plenário desta tarde, alerta para os elevados níveis de retenção: Portugal é o país europeu onde mais se chumba e mais cedo. A taxa de retenção no 2º ano foi em 2016 de 8,9% - o nível mais elevado não só no 1º ciclo mas também no 2º, aliás equivalente ao atingido no final do ensino básico após exames nacionais pelos alunos do 9º ano, que registaram 9%, só superado pelos chumbos no 7º ano que foi de 12,6%.

Para a nova presidente do CNE, Maria Emília Brederode Santos, este é o problema mais grave do sistema de ensino porque é "uma situação injusta e ineficaz". As retenções em Portugal ainda são determinadas pelo contexto económico e social - a probabilidade de um aluno oriundo de um contexto desfavorecido chumbar é de 40%, enquanto a de um estudante de um meio favorecido é de 12%, lê-se no relatório - e as retenções revelam-se ineficazes na recuperação dos alunos. O chumbo é a principal resposta das escolas às dificuldades dos alunos e o problema é que as falhas na aprendizagem não são superadas e os alunos acabam por acumular retenções.

Aulas antiquadas

A "luta contra as retenções" é, por isso, uma das prioridades da presidente do CNE que considera que a metodologia em sala de aula tem de mudar e modernizar-se. Apesar do determinismo social, em Portugal há cada vez mais escolas (32%) resilientes que contrariam as desigualdades e conseguem bons resultados face às médias nacionais e europeias.

De acordo com o relatório, os professores privilegiam as aulas expositivas - nas quais debitam matéria aos alunos. Na Europa, só os irlandeses usam mais este tipo de aulas do que os portugueses. É esta metodologia dominante que para Maria Emília Brederode Santos tem de mudar. "É um modelo de escola antiga: alunos sentados a ouvir. Não é útil, nem a melhor maneira de aprender, põe problemas de disciplina graves porque já nenhum aluno aguenta estar muito tempo sentado a ouvir", insiste ao JN.

País vai ter de preparar saída massiva de professores

De acordo com o relatório, que cruza diversos estudos e estatísticas, as escolas públicas perderam entre 2006 e 2016 mais de 126 mil alunos (uma redução de 8,7%), enquanto as privadas registaram um acréscimo de 15600 alunos (mais 5%).

O país também tem cada vez menos professores e cada vez mais velhos. Desde 2006, saíram dos estabelecimentos públicos mais de 30 mil docentes, enquanto a redução no privado foi de 936. Os níveis de envelhecimento da classe é outro dos problemas que mais preocupam a presidente do CNE.

De acordo com os dados compilados no Estado da Educação, quase 46% dos professores têm mais de 50 anos e se a análise for alargada aos que têm mais de 40 de idade, são quase 84%. Nos jardins de infância e escolas públicas só 0,4% dos docentes têm menos de 30 anos, são até menos dos que os que têm mais de 65 anos que são 0,6% e estão à beira da aposentação. Nos colégios, 1% dos docentes têm 65 ou mais anos mas metade dos professores têm menos de 40 anos.

"É um grave problema que o país vai ter de resolver em breve", alerta Maria Emília Brederode Santos, sublinhando que a maioria dos docentes vai aposentar-se na próxima década e que essa saída massiva terá de começar a ser planificada.

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