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Escolas só reaproveitam 10% dos manuais usados

Escolas só reaproveitam 10% dos manuais usados

A reutilização dos manuais escolares disponibilizados pelo Ministério da Educação ainda é baixa. Dos livros fornecidos no ano anterior no 1.º Ciclo, só 10% estão a ser reaproveitados este ano e um quarto das escolas não conseguiu reutilizar qualquer livro. Mas há bons exemplos: 210 agrupamentos superaram a média nacional.

Destes 210 estabelecimentos (quase um terço dos agrupamentos do país com escolas primárias), mais de 60% encontram-se nas regiões do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo. Aliás, é na capital que se localiza o agrupamento com nota mais alta de reaproveitamento: Escolas de Marquesa de Alorna. Seguem-se os agrupamentos de escolas de Albufeira Poente, em Albufeira, do Vale de S. Torcato, em Guimarães, e de José Silvestre Ribeiro, em Idanha-a-Nova.

O Ministério da Educação dá conta, ainda, de cerca de 20 agrupamentos em que metade dos manuais do 1.º Ciclo foi reutilizada e de 51 agrupamentos com um aproveitamento total (100%) dos livros em alguns anos de escolaridade. Outros estabelecimentos (184 escolas) ficaram muito próximos dessa marca. É o caso do Agrupamento de Escolas de António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, que reutilizou 91% dos manuais no 2.º ano, 93% no 3.º ano e 89,7% no 4.º ano. Não foi possível fazer o mesmo no 1.º ano. E isso é comum.

Taxa maior nos 3.º e 4.º anos

Com o avançar da idade dos alunos, torna-se mais fácil sensibilizá-los para a preservação. Também adquirem maior destreza na escrita, aperfeiçoando a letra e carregando menos no lápis. Isso explica que a taxa de reutilização seja mais elevada no 3.º e no 4.º anos.

António Sousa, diretor do Agrupamento do Vale de São Torcato que regista 100% de reutilização nos 2.º, 3.º e 4.º anos, reconhece que o aproveitamento no 1.º Ciclo não é fácil devido à configuração dos manuais, "feitos para serem escritos e trabalhados", com espaços de preenchimento e exercícios que obrigam "a colar e a cortar". "O manual é apenas um recurso e evita-se escrever ou deixar marcas que comprometam o uso posterior", explica Helena Martins, das Escolas de Albufeira Poente.

Escrever no caderno

Além da sensibilização da comunidade - que, nas escolas do Vale de São Torcato, resultou na criação de equipas de professores para rececionar e avaliar o estado dos livros que são entregues em dias distintos, consoante o ano de escolaridade -, o segredo dos estabelecimentos com melhores taxas de reutilização é o uso do caderno e das novas tecnologias. Sempre que possível, os meninos fazem os exercícios no caderno ou no quadro interativo na sala de aula.

"O quadro interativo permite que escrevam menos nos manuais. Os meninos podem usar canetas de várias cores no quadro e isso é motivador. Já nasceram na era da informática e têm apetência para utilizar os equipamentos", explica Isabel Batista, da direção das Escolas José Silvestre Ribeiro. Em Idanha-a-Nova, a política de reutilização é antiga e foi alargada ao 1.º Ciclo nos anos mais recentes. "Para chegarmos a este patamar, houve muito trabalho de sensibilização dos pais, das crianças e dos professores", especifica.

Porém, ao JN, algumas escolas admitem que têm enfrentado a resistência de pais à adoção de livros usados, sobretudo pelo efeito da comparação. "Os pais têm sempre esperança que os filhos recebam livros novos. Depois, há escolas no concelho que não reutilizam e os pais questionam por que é que os seus filhos têm livros usados, quando há crianças noutras escolas públicas com livros novos", reconhece António Sousa, assinalando que o facto da taxa de reutilização nacional ainda ser muito baixa dificulta o trabalho das escolas que reaproveitam livros.

Nas mesas das salas de aula da Escola Básica Sérgio Ribeiro (Feira), nunca há um manual sozinho. O caderno está a sempre a seu lado. E é assim em todas as primárias do Agrupamento de Escolas António Alves Amorim. A reutilização dos manuais, decretada pelo Ministério da Educação, levou o conselho de docentes a definir uma nova estratégia de trabalho.

"Sugerimos que todas as atividades propostas nos manuais que possam ser realizadas no caderno e nos quadros interativos sejam feitas dessa forma. É uma forma diferente de trabalhar. Com a reutilização, os nossos alunos passam a ter uma consciência ecológica", assinala Rosa Oliveira, diretora-adjunta do agrupamento que se distingue, no território nacional, por ter uma das mais elevadas taxas de reutilização de livros.

Há, no entanto, alguns exercícios, como gráficos e tabelas, de difícil reprodução, que obrigam ao preenchimento a lápis nos livros. "É evidente que os manuais não estão preparados a 100% para a reutilização que o Ministério da Educação preconiza. No 1.º ano, não conseguimos reutilizá-los, porque os alunos apagam e escrevem com mais força." Nos restantes anos, o reaproveitamento ronda ou supera os 90%.

Minoria decidiu comprar

Esta política, atenta Rosa Oliveira, é para manter, embora reconheça a necessidade de construir os manuais de modo diferente. Não só ter menos espaços de preenchimento, como passarem a ser elaborados com materiais mais duradouros. "Até os livros de fichas, se fossem realizados num tipo de material que permita escrever e apagar com esponjas, poderiam ser reutilizados e haveria menos abate de papel", sugere a professora.

A mudança não acontece só dentro da sala de aula. A medida de gratuitidade dos manuais escolares, definida pelo Governo e que implica a reutilização, entrou no terceiro ano e obriga a sensibilizar os pais para o conceito de empréstimo.

No agrupamento, nem todos os encarregados de educação aceitaram os livros fornecidos pelo Estado. Os dados do agrupamento mostram que a opção pela não aceitação dos manuais foi mais expressiva nos 3.º e 4.º anos de escolaridade, apesar de minoritária. No 2.º ano, 85% dos alunos aderiram aos manuais emprestados. No 3.º e no 4.º anos, essa adesão foi de 71,5% e 79,3% respetivamente.

"Alguns pais optaram por adquirir os manuais, para que o filho possa escrever neles, mas foram uma minoria", explica a professora. "Estes primeiros tempos também são difíceis para os pais, porque, até há pouco tempo, era um dado adquirido que teriam sempre manuais novos."

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