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Especialistas em educação temem que mais exames signifiquem mais desigualdade e exclusão

Especialistas em educação temem que mais exames signifiquem mais desigualdade e exclusão

Especialistas em educação vêem com receio a ideia de generalizar os exames a mais anos de escolaridade, proposta pelo Governo, alertando que podem vir a agravar situações de desigualdade e exclusão de alunos do sistema.

O programa do Executivo PSD/CDS-PP, conhecido esta terça-feira, estipula "uma cultura de avaliação a todos os níveis do sistema de ensino", prevendo a criação de "uma unidade autónoma e independente" para "aplicar provas e exames nacionais validados, fiáveis e comparáveis". Tal medida poderá significar a extinção do actual Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), como muitas vezes o agora ministro da Educação, Nuno Crato, defendeu.

"Se formos aumentar a exigência e o rigor na educação básica e secundária pela introdução de mais exames apenas, é evidente que não vamos aumentar, por isso só, a qualidade do ensino que oferecemos", disse à agência Lusa Adalberto Dias de Carvalho, da Universidade do Porto.

O especialista em filosofia da educação concorda com a introdução de mais exames se as escolas conseguirem compensar, na orientação pedagógica, as discriminações sociais entre os alunos.

Caso contrário, "vamos reforçar aquilo que são as injustiças de partida que existem", advertiu.

"Temos a democratização da entrada e depois a meritocracia na saída, que pode ser reforçada com os exames. Temos aqui no meio de colocar os mecanismos que garantam que as dificuldades, por discriminações de ordem social de origem, sejam compensadas", defendeu.

O catedrático do Porto referia-se a todos os mecanismos de apoio aos alunos que funcionam nas escolas, mas muitas vezes "não de forma suficiente", por "falta de horas disponíveis para o efeito, falta de organização interna" dos próprios estabelecimentos ou pelas metodologias utilizadas.

Já sobre a eventual extinção do gabinete responsável pelas estatísticas, exames e provas de aferição (GAVE) considera que o trabalho deve estar a cargo de uma entidade que seja independente, mas não necessariamente privada.

José Pacheco, director do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, frisou, por seu lado, que as expectativas nesta área são muito elevadas: "As ideias expressas pelo actual ministro foram de muita crítica ao sistema educativo, falando inclusive na necessidade de implosão do Ministério da Educação para criar estruturas totalmente novas".

Antevê que haverá sempre uma grande diferença entre as palavras do crítico dos últimos anos e a acção do ministro de hoje.

A independência poderá ficar a ganhar se for feito um concurso a nível de universidades ou empresas para entregar o trabalho do GAVE, mas como o gabinete funciona com professores destacados e funcionários do ministério será sempre "um processo complexo" extingui-lo, observou.

Em termos de custos, não vê poupanças.

Já sobre os exames, mostrou-se também receoso: "Quando falamos em colocar exames como sendo processos eliminatórios, é evidente que poderemos deixar de fora do sistema muitos alunos e isso acarreta problemas sociais".

Para José Pacheco, a crise vai levar certamente a que se faça a adiada reforma curricular. "Os últimos remendos feitos pelo anterior ministério foram suspensos pela Assembleia da República", lembrou.

A medida significaria a eliminação de muitos postos de trabalho no ensino básico, nomeadamente de professores de educação visual e tecnológica, mas como a "troika" também quer reduzir pessoal no sistema, prevê que se faça através de uma reorganização do currículo.