PSD

Ferreira Leite vence directas no PSD

Ferreira Leite vence directas no PSD

"A página foi virada".. Foi esta a mensagem central do curto discurso (menos de cinco minutos) da nova líder do PSD quando ficou claro que Manuela Ferreira Leite ganhara com 37% dos votos, seguida de Pedro Passos Coelho, com 31%, Pedro Santana Lopes, com 29% e de Patinha Antão, 0,68%.

A página foi virada. Na opinião da presidente eleita, porque "o partido "recuperou a esperança, o entusiasmo, e responsabilidade e a determinação". Mas também, porque "o PS já sentiu necessidade de pedir aos militantes para cerrarem fileiras". Foi uma "página virada" em dois planos - internamente e para o país.

Pelo que se pode perceber na economia de palavras da antiga ministra, a chave para atingir o Poder está em centrar as preocupações do partido nos problemas do país. "Sempre que o PSD pôs os problemas do país à frente dos internos, fortaleceu-se como partido". Desta afirmação a líder social-democrata partiu para a crítica ao Governo por "confundir insensatez com tecnocracia" e falou da necessidade de a classe média "não ser ignorada", de ser reforçada a sociedade civil e de apoiar as pequenas e médias empresas.

Logo a seguir às palavras de Manuela Ferreira Leite, surgiu o primeiro sinal socialista, pela voz de Vitalino Canas, o porta-voz do PS, em forma de contra-ataque: "Um dos problemas que vai ter é descolar-se da imagem da sua própria governação, enquanto ministra das Finanças do Governo de Durão Barroso. Da obsessão pelo défice e alheamento da economia e das pessoas". Depois atacou pelo lado interno das fragilidades de uma líder que foi eleita por menos de 40% dos votos. "O primeiro grande desafio de Manuela Ferreira Leite junto do país vai ser mostrar que não ter tido os votos de 65% dos militantes do seu partido não a inibe de pedir o voto dos portugueses".

Ainda do exterior, veio o tom institucional do ex-parceiro de coligação do PSD, usado pelo líder parlamentar, Diogo Feio: "O CDS-PP cumprimenta a dra. Manuela Ferreira Leite pela vitória, porque respeita as decisões democráticas dos outros partidos". Sem ser dito ficou o desafio que, na prática, o CDS-PP tem preparado para a nova liderança "laranja" - a moção de censura que na quinta-feira vai apresentar ao Governo. Como votará o PSD, numa altura em que o líder da bancada, Santana Lopes, está demissionário?

A nova liderança do grupo parlamentar é um dos problemas imediatos da nova direcção. O regresso de Marques Guedes, um dos homens-chave na campanha de Ferreira Leite, é dado como certo, mas nada mais que o silêncio saiu da boca do deputado.

De Santana Lopes espera-se, de novo, a incógnita. Sabe-se apenas que deixará a liderança da bancada e se remeterá a uma "nova reflexão" por "pouco tempo". Desde que começou a sua declaração de derrota, pelas 19h25, fez questão de deixar claro que não foi "erradicado", como alguns pensariam. "Ao contrário de uma bipolarização que afastaria a minha candidatura ficou provado que havia uma realidade de três candidaturas com apoio significativo equivalente". É a declaração de que pretende liderar uma "corrente" interna. Ou, quem sabe, provocar uma cisão. Reconhecendo "inteira legitimidade" à vencedora para liderar, põe-se à margem do projecto de Manuela Ferreira Leite ao dizer que "não é nada fácil" conviver com os seus "modos de estar, de trabalhar e de encarar o PSD". Por outro lado, acusou indirectamente Menezes: "Quem dá a vitória a Manuela Ferreira Leite talvez tenham sido,como as declarações do presidente do partido, aqueles a querer menos essa vitória"

O discurso da unidade só surgiu pela boca de Passos Coelho. "Manuela Ferreira Leite contará seguramente com toda a minha lealdade para com o partido e com toda a minha disponibilidade e ajuda para que o PSD consiga, como o país precisa, ser uma alternativa ao PS e temos um ano para a poder construir".

Sem nunca realçar o facto de ser a primeira mulher a ser eleita líder de um partido em Portugal, Ferreira Leite deixou ontem, de facto, uma página virada. Falta saber qual é a página seguinte.