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Maçon não mete cunha

Maçon não mete cunha

A maçonaria perdeu influência política, os magistrados-maçons não fazem fretes a "irmãos", nem as relações maçónicas propiciam cunhas, tráfico de influências ou negociatas. São ideias defendidas, em Coimbra, pelo maçon António Arnaut.

O anterior grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) intervinha numa tertúlia, comemorativa do 90º aniversário do Tribunal da Relação de Coimbra, sobre "A influência da maçonaria no sistema jurídico português".

António Arnaut assumiu que a organização secreta "inspirou ou participou em todas as grandes reformas, sociais e políticas, dos últimos 250 anos". "Deixou uma marca impressiva na história do nosso sistema jurídico", defendeu, exemplificando, apenas, com leis e códigos anteriores a 1975.

O ex-grão mestre do GOL ainda confessou que "a Constituição actual tem muito espírito maçónico", porque os membros eleitos para a Assembleia Constituinte, "muitos pelo PS e outros pelo PSD, eram praticamente todos maçons". Porém, nada disse sobre a influência da maçonaria na s reformas dos últimos 32 anos.

"Hoje, felizmente, a maçonaria tem menos influência, porque num regime democrático estabilizado não se torna tão necessária a sua intervenção", disse, antes de assumir que a organização "continua a ter um papel relevante".

À margem da prelecção, o JN perguntou se houve influência da maçonaria na feitura da última reforma penal, que é criticada por alguns sectores por impor prazos aos inquéritos que podem inviabilizar a investigação da grande criminalidade económica. "Eu suponho que não deve ter havido, porque a maçonaria não está para se meter em minudências", respondeu Arnaut, não obstante o chefe do grupo de missão que gizou a reforma ter sido Rui Pereira, o maçon, ministro e juiz que foi apanhado em escutas telefónicas do processo Portucale a falar da maçonaria (outra inovação da reforma penal é a proibição de a imprensa publicar escutas que já não estão sob segredo de justiça).

Ao contrário do que sugerem escutas do Portucale que apanharam outro maçon, acusado de tráfico de influências, "não é verdade" que a maçonaria seja terreno fértil para os seus membros meterem cunhas ou combinarem negócios, frisou Arnaut. Apesar de reconhecer que "também há pessoas que vão para a maçonaria por interesses" alheios aos princípios da organização e que esta, noutros tempos, "esteve inundada de oportunistas", asseverou que, genericamente, "a maçonaria é uma associação de homens honrados".

De resto, o advogado de Coimbra, militante do PS que é visto como "pai" do Sistema Nacional de Saúde, contrariou a ideia de que os maçons que são juízes e magistrados do Ministério Público possam ser permeáveis a pedidos de "irmãos". "Não se pode pedir nada a um juiz, que é uma ofensa (...). O facto de um magistrado pertencer à maçonaria não afecta a sua independência", garantiu, depois de ter informado a plateia, de umas escassas três dezenas de pessoas, que, em Inglaterra, os magistrados são "obrigados a declarar se são maçons".

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