Saúde

Mãe de bebé milagre foi a cremar em Vila Franca

Mãe de bebé milagre foi a cremar em Vila Franca

Sete pessoas acompanharam a mãe, que serviu de incubadora durante 107 dias, em morte cerebral. Bebé tem peso acima da média.

Sandra Pedro, 37 anos, sofreu uma hemorragia intracerebral pelas 23.43 horas do dia 20 de fevereiro, quando já estava internada no hospital, a ser tratada a um outro problema de saúde. Estava de 17 semanas de gravidez e, segundo os médicos, tinha manifestado vontade de levar avante a gravidez, caso algo lhe acontecesse.

Estando o feto em aparente condição de saúde, e após parecer da Comissão de Ética do hospital, numa decisão concertada com ambas as famílias, foi acordada a manutenção da gravidez até às 32 semanas.

O corpo de Sandra Pedro, de 37 anos, foi cremado na quarta-feira no crematório do Casal da Serra, na Póvoa de Santa Iria, onde vivia. Tinha um outro filho, de 12 anos.

Um bebé fenómeno

107dias de gestação na barriga de uma mãe em paragem cerebral fazem do menino que nasceu na terça-feira de cesariana no Hospital São José, em Lisboa, um fenómeno. O menino está bem, na Maternidade Alfredo da Costa.

Segundo a (escassa) literatura médica conhecida, este tinha sido o número máximo de dias que um feto se tinha mantido vivo no corpo de uma mãe com óbito declarado. Até terça-feira. As equipas portuguesas não foram além por acharem que o feto reunia boas condições de sobrevivência às 32 semanas, explicaram os médicos em conferência de imprensa. O bebé está agora internado entre prematuros na "Alfredo da Costa". A imprensa internacional deu grande destaque ao caso.

"Não nos podemos esquecer de que a família está diante de emoções contraditórias, a de alguém que nasce e a de alguém que tem de levar a enterrar e por isso eu pedia a toda a Comunicação Social o apoio para preservar esta família, uma família fragilizada", disse Ana Escoval, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Central.

O drama começou a 20 fevereiro com a "morte súbita" da mãe, provocada por um derrame cerebral; incluiu uma posição do tribunal em defesa do prosseguimento da gravidez; suporte hormonal e nutricional para garantir as condições ao bebé; fármacos (depois do desenvolvimento dos órgãos) para combater as infeções hospitalares surgidas nos cuidados intensivos; médicos empenhados, equipas do "São José" e da MAC; um pai ansioso, um irmão de 12 anos. Este era o segundo filho da mulher e o primeiro do casal.

Nas palavras de António Sousa Guerreiro, diretor clínico do "São José", "foi fundamental o contacto com a família, uma família impecável e responsável, que acompanhou o processo até ao nascimento". A história parece ter tido um desfecho com o nascimento, "mas estamos numa viagem. Agora a criança está na unidade de cuidados intensivos pré-natais, mas há todo um percurso a percorrer".

O menino nasceu com um percentil de peso superior à média (2,350 quilos). E, apesar de necessidade de suporte respiratório, encontrava-se de perfeita saúde. "Até ao momento, não revela sequelas, mas terá de ser estudado", declarou Teresa Tomé, chefe da unidade de Neonatologia. Os efeitos deste tipo de gestação para a saúde física e mental da criança - desde as 17 semanas que não ouve a voz da mãe - mantém-se um mistério. Quando chegar às 40 semanas, fará nova ressonância magnética.

Para as equipas, esta experiência resultou numa vitória para a medicina nacional. "Foi um enorme desafio. É um caso raro. O que já aconteceu foi uma mãe permanecer mais 24 horas", disse Susana Afonso, membro da equipa de sete pessoas que acompanhou os cuidados à mãe dia após dia na unidade dos neurocríticos. Não houve "guidelines" para os procedimentos. E, a cada momento, foram tomadas decisões em função dos problemas. "Algo inédito aconteceu num hospital público", sublinhou Ana Escoval, que agradeceu aos profissionais a "elevada disponibilidade, profissionalismo, competência técnico-científica e amor e dedicação". Quando o bebé nasceu, houve médicos que não resistiram ao choro.