Premium

Mais de 700 casais à espera de doações para terem um filho

Mais de 700 casais à espera de doações para terem um filho

Carina Sá, 32 anos, e Vicente Almeida, 35, começaram a tentar engravidar há dois anos. Nos testes de gravidez, o resultado era sempre negativo.

O diagnóstico chegou em julho do ano passado. Carina sofre de uma menopausa precoce e a única solução para ter um filho biológico é recorrer a óvulos doados. Tem três anos de espera pela frente e há 732 casais na mesma situação.

Segundo dados do Banco Público de Gâmetas, há 437 pedidos de espermatozoides e 295 de óvulos em lista de espera, por haver falta de dadores.

"Três anos é tanto, a vida muda imenso", desabafa Carina, que já estava avisada para a longa espera: "Sabia que ia demorar, que havia poucas doações. Mas é muito". O Banco Público de Gâmetas está agora a dar resposta a pedidos de gâmetas masculinos de abril de 2017 e de gâmetas femininos de maio de 2016, significando que o tempo de espera para um tratamento com óvulos está nos 33 meses e com espermatozóides nos 21 meses, o maior até hoje. Este aumento justifica-se porque os pedidos de gâmetas masculinos triplicaram nos últimos quatro meses, enquanto as doações estão a diminuir.

Carina decidiu ter filhos há dois anos, depois de casar com Vicente. "Sempre tive pouca menstruação. Lá no fundo, sabia que ia ter dificuldades, mas nunca pensei que fosse tão difícil."

Decidiu fazer exames. "Em julho, chegou-se à conclusão que sou infértil, sofro de uma falência ovárica precoce. E a ginecologista avisou-me que a única solução para engravidar seria por inseminação de óvulos doados".

Foi um choque. "Olhava para isto como se o futuro bebé fosse da dadora. Até pensei em mim como uma barriga de aluguer. Porque não há informação", conta. Mas Carina queria engravidar e pesquisou muito. "Agora, sei que há muita gente na mesma situação. E mãe é quem gera e cria, não quem doa uma pequena parte genética."

O pedido de ovócitos de Carina e Vicente entrou na lista de espera este ano. Pelo Serviço Nacional de Saúde, podem fazer três tratamentos. "Sabia do tempo de espera. Mas sou uma pessoa muito comum, pensei que seria mais fácil encontrar uma dadora para mim."

Quatro dadores masculinos

No ano passado, houve apenas quatro dadores efetivos de espermatozóides e 32 dadoras de óvulos. O fim do anonimato dos dadores com o acórdão do Tribunal Constitucional afetou principalmente os dadores masculinos, segundo a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF). "Houve logo uma retração. Os homens são mais receosos, mas desistir de uma doação tem um impacto brutal, é o fim do projeto de vida de alguém", avisa Cláudia Vieira, presidente da APF.

Como Carina e Vicente. "O processo está a ser penoso, é tudo muito moroso. Muitos exames, muitas consultas", diz Carina, que apela ao aumento das doações para concretizar o sonho de ser mãe: " Doar para casais como nós é um grande ato de altruísmo".